| Fata Morgana...
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...ou o Claro Obscuro |
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Avalon, 30 Julho, 2005
Na Balança Incerta
Paro de colocar medos e pesos nos pratos da balança. Olho para aquele objecto enganador, miro o fiel, mexo-lhe, considero o todo, sorrio. É tão fácil de alterar, até com o pensamento! Dou safanões ao instrumento, ao símbolo, à comparação. Faço oscilar os pratos, como baloiços, e depois, também, girar... e lembro-me daqueles divertimentos tumultuosos do luna park, em que gritamos de susto e prazer enquanto sentimos as entranhas coladas às costas. A balança já não parece um utensílio de precisão, exacto e tranquilo. Mesmo quando pesa mais do lado que gostamos menos, é tão estupidamente tranquilo! Nunca mais hei-de colocar pesos nos pratos da balança. Só coisas absolutamente subjectivas, informes, invisíveis. Assim terei a certeza da inutilidade do fiel, mero ponteiro doravante para sempre inerte. E saberei melhor do que nunca para que lado pende o destino. © Fata Morgana "In Trutina" (Carmina Burana: III Cour D'Amour) In trutina mentis dubia Fluctuant contraria Lascivus amor et pudicitia Sed eligo quod video Collum iugo prebeo Ad iugum tamen suave transeo (Tradução: Na balança incerta da mente, oscilam em movimento oposto, o amor casto e o amor lascivo. Eu escolho o que vejo, e estendo o pescoço a esse jugo, um suave jugo.) ![]() Pintura de Marcel Duchamp Avalon, 23 Julho, 2005
Ausência Por vezes tenho que ficar quieta, silenciosa, e pensar somente: não estou a pensar em nada. Nesse meio tempo, é como se não sentisse todos os espasmos do espírito inquieto e a dor excruciante que me causam em cada músculo etéreo. São longas ausências inventadas, provocadas, mas lembro-me bem... lembro-me sempre, do minúsculo grão de inquietude que me faz partir. Parece uma parede, uma muralha inexpugnável que se ergue à minha frente e não atrás de mim, embora nada me pareça realmente, já que não estou a pensar em coisa alguma. Algures - onde, não sei - dá-se uma implosão feita dos pequenos vulcões de energia zangada que guardei - porquê, não sei, já que não penso! - e fica um abismo aos meus pés que voltam para trás, naturalmente, sem comando e apenas porque já não há chão. Apesar de pés e chão serem falsos, como tudo o resto que acontece nesses momentos, também eles falsos, volto ao ponto onde parei quieta, silenciosa e sem pensar. O pequeno grão-muralha-imensa nem sempre desaparece. Mas encontro-o fatalmente mudado, descubro que só faz sentido se eu nunca mais pensar nele e caminhar através dele, sobre ele. Não existe fora de mim, porque só eu lhe confiro a dimensão. Não sei porque é que se mudam assim todas as coisas em que não penso. © Fata Morgana ![]() Pintura "Tower" de Lahib Jaddo Avalon, 17 Julho, 2005
A Embriaguez do Medo Não te conheço porque não te temo e não te temo por me seres tão pele Fala-me uma vez mais das tuas ideias que não escuto porque entram directamente em mim nos poros da alma e sinto-te e sei-te sem ter consciência de ti Porque será que insistes na bebedeira de fazer aquilo que te leva onde não queres? © Fata Morgana ![]() Noiva do Vento de Oskar Kokoschka Noiva do vento, a seu modo desenfreado e sonhador, comemora com sofisticada percepção psicológica as turbulências e inseguranças emocionais daquele relacionamento: Alma, a "noiva", dorme complacente enquanto Kokoschka, esfolado e desintegrando-se num espaço interior criado pelas pinceladas retorcidas e pelas faixas sinuosas de cor, agoniza solitário e silencioso. Avalon, 11 Julho, 2005
Um
Ser Um sem jamais ser só. Sê-lo com quem abraça a solidão ao som exacto das palavras e dos gestos com que lhe dá, em mim, voz de repúdio. Ser Um contigo. Ser a rival desse teu perigo, sim, entrelaçada em ti e tu comigo. © Fata Morgana ![]() Pintura de Jean Delville Avalon, 08 Julho, 2005
A Pausa Eterna
Faz uma pausa pousa no chão o teu tormento deixa morrer em paz o sonho que não acalento pisa a vida que te resta sem mim transforma-a num festim © Fata Morgana ![]() Pintura de Vasily Kandinsky Avalon, 02 Julho, 2005
Mais tremente do que a pequena chama que resiste ao vento
eu seguro a candeia como se a perseguisse em vez de a suster. Por vezes mal sinto os dedos e dói-me o olhar velado de sal molhado no feitiço de fixar o fogo e não o deixar morrer. Depois de repente é o meu sopro frágil mas deliberado que o extingue. © Fata Morgana ![]() Pintura de Edvard Munch |
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