Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
Todos os direitos reservados © Fata Morgana, SPA
Avalon, 23 Agosto, 2005

 

 

Vou estar ausente do meu Castelo até ao próximo dia 29. Claro que ele também pertence a quem o visita, sempre foi assim, e nem se pode dizer que fique vazio de mim.
Deixo as portas abertas e, para além disso, farei como tenho feito: quando eu não estou ficam as vozes daqueles que o meu coração ama, aqui, onde são Reis. Os meus Reis Magos.

Fata Morgana


"Vivemos porque dançamos, vivemos enquanto dançamos..."
Rudolf Nureyev


Foto de autor desconhecido



"O intérprete ideal de piano (ele nunca dizia pianista!) é o que quer ser um piano, e eu todos os dias digo para mim mesmo, quando acordo: quero ser o Steinway, não quero ser o homem que toca o Steinway, quero ser o próprio Steinway. Aproximamo-nos muitas vezes deste ideal, dizia ele, ficamos mesmo muito perto quando julgamos ter já enlouquecido, quando estamos mesmo à beira da loucura, a coisa que mais nos aterroriza. (...) Mas nunca nenhum intérprete de piano conseguiu ainda tornar-se a si próprio supérfluo por ser um Steinway, assim dizia o Glenn. Acordar um belo dia e ser Steinway e Glenn Gould num só (...) Glenn Steinway só para Bach."

Excerto de O Náufrago, de Thomas Bernhard (tradução de Leopoldina Almeida; Relógio D'Água)

Foto de autor desconhecido





"Sempre me perturbou essa obstinação do espírito, de querer pensar em dimensões e em espaços, de se fixar em estados arbitrários das coisas para pensar, de pensar em segmentos, em cristalóides, e que cada modo do ser fique coagulado num começo, que o pensamento não seja uma comunicação instantânea e ininterrupta com as coisas, mas que essa fixação e esse gelo, essa espécie de transformação da alma em monumentos, se produza, digamos assim, ANTES DO PENSAMENTO. É evidentemente a melhor condição para criar."

Antonin Artaud em O Pesa Nervos (tradução de Joaquim Afonso; Hiena Editora). Foto de autor desconhecido



 

 
Avalon, 20 Agosto, 2005

 

 
O Paraíso Perdido

Ainda foi para o gelo que abri os olhos pesados de tanto tempo. Mas o gelo já não estava ali, nada restava daquela imensidão mortífera onde dormi o meu sono quase interminável, com o abandono triste de nada mais querer. Não tinha descansado ou perecido. Tampouco o esquecimento me dera a sua graça, pois assim que vi a vegetação luxuriante senti saudade e, sobretudo o movimento das copas das árvores murmurando coisas ininteligíveis à brisa, magoava-me o peito. Percorri o pescoço com as pontas dos dedos, mergulhei-os nos cabelos, imitando instintivamente aquele afago tão antigo e conhecido.
Ergui-me e percebi que era a solidão quem me havia de valer, já que tomara conta de mim por tanto tempo. Poupando-me a vida, fizera-me sua escrava. Esta é uma lei antiga dos sem lei, e a sua simplicidade é tão cruel como justa. A fisgada resultante dessa percepção abalou-me profundamente... mas suportei-a.
Distraí-me sentindo a fome, a fome mesquinha que me devorava as entranhas teimosamente humanas. As árvores, pensei, mas não aquela! Senti os olhos cheios de água ao recordar as belas maçãs douradas da árvore que me dera o último alimento, aquele que eu tanto quisera partilhar. Mas era verdade que não faltavam outras espécies e eram generosas, carregadas de frutos doces, sumarentos. No rio sereno e lindo os peixes pareciam saltar para as minhas mãos quase tão ágeis como eles. E o fogo era tão fácil de fazer, apenas alguma destreza e logo crepitou na terra, como dantes fazia dentro de mim.
Fiz a minha refeição. Predadora!, pensei, sou predadora, porque mato assim a fome que não morre, para ficar eu viva e não vivo. Nesse momento é que realmente acordei. E cada nervo meu, até o mais ínfimo nervo, me sacudiu e enchi-me de intenções fortes. Não me entregaria à solidão. E queria voltar ao paraíso, reencontrá-lo.
Comecei por ir junto da Árvore da Sabedoria. Colhi a maçã maior, a mais dourada. Segurei-a nas mãos, enquanto a sentia, parecia pulsar! Cheirei-a e, com volúpia, rocei-lhe os lábios na casca tenra, terna. Fechei os olhos num estremecimento: aquele fruto tinha que ser sempre partilhado. E só existia uma pessoa no mundo, além de mim.
Comecei a procurá-lo.

© Fata Morgana


Pintura de Autor Desconhecido
 

 
Avalon, 11 Agosto, 2005

 

 
A Árvore do Pão

Comecei a andar para
longe do limiar escondido
onde transformava dores em pão.

A árvore das minhas mãos
pedia-me o calor
dessas transformações.
Tentei apetecer-lhe brisas frescas
silêncio
ou quietude,
por um tempo.
Disse-me - Não...

© Fata Morgana


Pintura de René Magritte
 

 
Avalon, 05 Agosto, 2005

 

 

Moravas nas Minhas Mãos

Estava parada no caminho, esquecida de há quanto tempo. Tinha a cabeça inclinada para trás, os olhos postos na lua. As mãos, abertas para aquela luz extraordinária, iam-se enchendo de pensamentos para acarinhar, mas eu não os acarinhava, naquele momento não percebi que devia ser as minhas mãos.
Quanto tempo passou é um mistério. Apenas sei que vivi muitas luas parada naquele lugar, naquele momento silente, no gesto único que me salvou, deixando-me inconscientemente receptiva ao que o olhar desapercebeu, fascinado pelo seu astro favorito.
Os lábios falavam quando era caso disso. Sorriam muito. Eram a minha ligação com o mundo, o engano com que aparentava estar onde me julgavam... Eram um álibi para, na realidade, permanecer ali parada no caminho.
O que me despertou foi o ruído estridente de uns olhos lunares que em mim se cravaram e para eles desviei imediatamente os meus. No exacto momento do encontro de olhares, tive o impulso rápido, instintivo, de pousar muito depressa ambas as mãos no coração. Estavam tão quentes, tão cheias...

Perplexa, sem te desfitar, temendo que fosses uma miragem, murmurei tão baixo que não sei se ouviste: oh... afinal era aqui que moravas!

© Fata Morgana



Nota: Imagem de Autor Desconhecido

 

 
O Meu Castelo
 
Arquivos
 
 
Listed on BlogShares