Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
Todos os direitos reservados © Fata Morgana, SPA
Avalon, 30 Setembro, 2005

 

 
Nas mãos a aspereza
de quem revolveu terras insondáveis
e a certeza
de ter ainda que as salgar

Sal que na alma queima as mágoas
dor que tranquiliza e cura
e de algum modo assegura
que é tempo de recomeçar

Ao longe dobram os sinos
dentro do meu coração
e eu pouso a primeira pedra
de uma nova construção

© Fata Morgana


The Temple of The Condor
Foto de autor desconhecido



 

 
Avalon, 26 Setembro, 2005

 

 

Houve tempos em que me assombravas, sentia-te a presença nos corredores dos meus pensamentos mais secretos. Pensava e era como se te falasse. Calava-me e tu continuavas a sugar-me a alma sem eu perceber como. Encontrava-te nos meus cantos interiores mais recônditos e profundos, na minha recordação mais triste e também no meu momento mais feliz, ambos de um tempo em que nem te conhecia; no meu riso aberto e solto para ti - e no entanto quando chegaste eu deixei de rir tão largamente. Tirei esse véu. Usava-o para esconder uma natureza contemplativa, alguns sentimentos que não queria revelar e me vinham aos olhos, e o riso semicerrava-os. Era um pequeno truque, chamava a atenção para longe do ponto onde estava a verdade, como fazem os ilusionistas!
Mas não te iludi. Permanecias fiel ao olhar e esgueiravas-te entre as frestas dos meus olhos rasgados pelo riso, descobriste-me, um a um, os traços da alma. Claro que interpretaste alguns erradamente. Mas foi assim que me amaste como mais ninguém soube fazê-lo.

© Fata Morgana


Imagem daqui


 

 
Avalon, 17 Setembro, 2005

 

 
Confissões XV - Adeus meu wild-west imaginário....

Quando eu era pequena era tão feminina quanto maria rapaz. Usava os cabelos grandes e dedicava-lhes especial cuidado e também não gostava de usar bibes, batas e as roupas muito usadas que teimavam em impingir-me, com razão, porque, depressa se verá como, dava cabo do que tivesse vestido. Aparecia sempre com alguns danos irreparáveis, mesmo a condizer com os sapatos esmurrados. Os meus companheiros inseparáveis eram o meu irmão e o nosso primo M. Passávamos as férias grandes no quintal e arredores, em brincadeiras violentas, que me faziam sentir livre e feliz!!


Foto de autor desconhecido

Os rapazes habituaram-se a ter-me junto deles e eu não os desiludia, acompanhava-os sem vacilar. Fazíamos crosses de bicicleta nuns terrenos baldios, pedregosos e com grandes montes de terra que descíamos a uma velocidade tal, que não sei como nunca nos partimos todos! Jogávamos futebol e às espadas, com espadas de pau improvisadas. Mas o que eu mais adorava era brincar aos índios e cowboys - o meu irmão era sempre o Billy the Kid, o meu primo um Mexicano e eu um Apache. Em utópica colaboração e harmonia, fazíamos expedições fantásticas pelos muros e telhados das arrecadações dos fundos dos quintais da Avenida onde moravam os nossos avós. Aquilo era o nosso wild-west, um bocado perigoso, mas não nos acobardávamos perante um salto mais arriscado ou umas telhas escorregadias. Lembro-me de andar sempre muito esfolada e cheia de nódoas de terra, musgo, verdete, mas queria lá saber, tinha que ser mesmo assim!
Não havia qualquer espécie de condescendência comigo por ser menina, ai deles que se lembrassem de semelhante coisa! Na verdade, M. tinha (tem!) exactamente a minha idade e picava-se um pedaço, porque empatávamos sempre nas corridas - lembro-me de irmos lado a lado, vermelhíssimos, cada um tentando suplantar o outro e batermos no portão ao mesmo tempo, estafados e em gargalhadas, num misto de divertimento e frustração. Também andávamos à pancada... e não éramos piegas ou meigos, nem ele nem eu. Quando nos magoávamos e zangávamos, a minha tia fechava-nos de castigo, mas juntos, o que era muito cómico, pois ao cabo de uns minutos de amuo, começávamos a conversar, primeiro com avareza e secura, umas banalidades, mas pouco depois o machado de guerra era enterrado.
Nessas alturas o espertalhão aproveitava para me contar histórias horríveis de supostos aranhões gigantes, em que eu acreditava piamente, pois sempre fui aracnofóbica, e dava-lhe facilmente o gozo de me esmorecer um bocado a valentia. Estremecia toda e pedia-lhe protecção se aparecesse algum desses monstros... e ele comprometia-se, de peito enfunado.
O meu irmão não era tão directamente competitivo, apesar de bravo, pois, com quatro anos menos do que nós, era natural que nos ficasse um pouco atrás. Mas também ele descobriu como me baixar a crista, e sem invenções: pendurava-se nos meus cabelos. Aquilo doía! Às vezes os grandes vinham a correr de casa acudir aos meus gritos, numa aflição, pois sabiam que eu não era berrona nem medricas, e julgavam que me tinha espatifado toda!!
A verdade é que sempre fomos e seremos muito amigos, mesmo muito, e passávamos umas férias fantásticas, cujas peripécias ainda hoje adoramos recordar e nos fazem rir a bandeiras despregadas.


Foto de autor desconhecido

Infelizmente (ou não...), chegou a altura em que a minha mãe, farta de me encontrar com uns riscos um bocado toscos nos olhos, me deu permissão - e orientação! - para me maquilhar. Tinha eu então treze anos e, claro, queria impressionar os namorados na escola.
Nas férias seguintes quis voltar às brincadeiras de sempre, só que já não alinhava em roupas de trazer por casa e... ia pintada. A princípio, parecia que nada se tinha modificado. Mas, ai!, nem tinha tempo de me sujar toda. Com o calor das correrias, sentia o contorno dos olhos cada vez mais pegajoso. Sacava um inusitado espelhinho do bolso, e claro, descobria que estava toda esborratada. Então anunciava aos meus dois parceiros que ia retocar a pintura!
Eles ficavam a olhar para mim um bocado aparvalhados, não percebiam para que me serviam as pinturas, e aquilo quebrava muito o nosso ritmo habitual. Até eu achava chatíssimo, já nada era como antes... estava dividida. Mas não queria abdicar do meu novo direito, até porque tinha muito bons motivos, incontornáveis, até! Podia passar um vizinho giro, ou chegar um amigo do meu tio solteiro. Ora, é claro que me convinha parecer mais velha, estar apresentável, giraça e tal...
Esse primeiro Verão de grande, passei-o com uma saudade que ia direitinha ao encontro da pena com que os meus companheiros de tropelias lamentavam, desolados: que chatice a Morgana agora pintar os olhos! E as minhas penas de Apache doíam-me secretamente no coração.

© Fata Morgana



 

 
Avalon, 11 Setembro, 2005

 

 
Labirintos

Os fios soltos das mentes soltas
serpenteando em viagens
desprendidas
por vezes formam laços
espontâneos
entre duas pontas perdidas

Nada existe de tão belo
como esses vínculos lassos
momentâneos
mas eternos
como o fio de Ariadne
(cujo mal foi ser novelo)

© Fata Morgana



Pintura de Elvic Steele

 

 
Avalon, 02 Setembro, 2005

 

 
Idolatrina

Desafiaram-me para cantar uma partida de dominó
Desafinaram-me as pedras,
com pedradas não certeiras
como teclas de um piano
desprovido do seu Dó
Desatei a voz num canto guiado pelas mãos somente
e esqueci as pintas pretas
joguei sozinha à capella
A solução foi tão bela
que adormeci de repente.

Desfeito em bichos-de-conta
dispersou-se o dominó...

Nunca mais desafiada por bichos de pinta preta
agora cobertos de dó!

© Fata Morgana



Imagem daqui


 

 
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