| Fata Morgana...
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...ou o Claro Obscuro |
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Avalon, 30 Outubro, 2005
![]() Fica-me o sono solto que dormi sobre a folha de Outono vermelho sanguínea, que vogava num rio de chuva, cujo caudal engrossava, encapelado e lesto, correndo sabe-se lá para onde. A minha nave foi berço de sonhos lindos, húmidos. Provei o beijo do desconhecido, o lábio carnudo e cheio de silêncios dementes, que não me acordou. Ao ritmo das valsas de um Chopin difícil de dançar, abandonei-me nos braços que me guiavam, firmes, e continuei dormindo. Ri. O riso ecoava num céu-da-boca alheio, abóbada repleta de sussurros que não entendi nem quis, pois eram segredos e não me pertenciam. Por vezes ouviam-se vozes e passavam sombras ameaçadoras, que se sobrepunham ao beijo e à valsa. Então, eu calava o riso e gritava-lhes palavras comovidas que não almejavam sair da minha boca, como se o som se perdesse num vácuo. Mesmo assim, o negrume desfazia-se e as últimas vozes deixavam no ar uma palavra que me era dirigida com respeito: Mulher...! A pedra estava lá para interromper a viagem e o sono e o sonho. Foi o solavanco que me despertou e o breve susto devolveu-me a lucidez. Guardei a folha de Outono nas páginas de um enorme livro de profecias que nunca abro. Talvez por ser vermelha, coloquei-a entre imagens apocalípticas, e assim que fechei o livro pensei para comigo «tudo isto já se cumpriu!». © Fata Morgana Avalon, 28 Outubro, 2005
![]() Pintura de Madla Hruza Sai...! Quero o meu azul-gelo sossegado sem nada que o marque com correrias loucas que sigo e travo e sonho... e assim não parece o meu. Por trás dos cortinados longos e enfunados escondes os meus receios e usas os meus anseios e eu sinto-me cansada para esse jogo, agora... vai embora...! Tudo quanto me dás já sei que não tem tempo e o soalho onde rolámos desemboca no tapete persa sob o piano de significação dispersa. Eu quero o meu branco-negro gelado apenas marcado por gotas de sangue que se persigam em fios vermelhos que jorrem até à lua. Somente essa descida inversa me faria tua... E eu não o quero ser. © Fata Morgana Avalon, 26 Outubro, 2005
Nunca tomes por paixão
palavras graciosas e gentis que afaguem o coração Ou gestos doces e subtis que nunca firam, que façam sempre sorrir e voar longe por vezes muito alto... mas sem o menor risco de cair!! © Fata Morgana ![]() Pintura de Evelyn de Morgan Avalon, 22 Outubro, 2005
Olhando para estes últimos tempos verifico que não me tem sido possível deixar aqui muito de mim. Se é certo que os meus visitantes têm encontrado o meu Castelo sempre aberto para os receber, também é verdade que eu raramente estou cá para lhes responder prontamente. Tampouco me tenho feito aos caminhos que me levam a lugares que sempre gostei de visitar. Cruzo-me menos com as pessoas de quem gosto e me fazem falta. Isso acabou! Vou guerrear com o tempo, tornar a perder-me muitas vezes na floresta. Cantar com os pássaros e dormir ao relento amigo que me dá tanta energia, com a lua e as estrelas a espreitar entre as copas das árvores que me sussurram muitas coisas que depois, assim que volto, conto aqui. Regressada a Avalon e ao meu Castelo, encontrei à minha espera algo que um mensageiro desconhecido deixou cá para mim, e partilho com alegria: ![]() Diário de Notícias, edição de 14 de Outubro de 2005 A todos o agradeço, pois se as minhas palavras aparecem neste Claro Obscuro, é porque alguém as escuta e lhes responde! Quero ainda recordar e festejar com cada viandante que passe, o dia 20 de Outubro de 2003, em que pela primeira vez aqui falei e alguém que escutou me disse: «Fala, Morgana!». Faz dois anos (e dois dias...). Muito obrigada, Donzelas e Cavaleiros, meus Amigos. O destaque do DN e este segundo aniversário também vos pertencem! © Fata Morgana Avalon, 15 Outubro, 2005
O meu quotidiano aparente desenrola-se quase sempre num espaço físico desprovido de lonjura. Na realidade, porém, escapei-me dele, ando ocupada no meu abismo interno, onde travo conhecimento com a mulher em estado de renovação acelerada, que me surge cheia de surpresas, todos os dias, muitas vezes por dia. Estou prenhe de emoções, ofegante de caminhar por pequenas artérias do eu... estou novamente pronta para mim. ![]() Pintura de Dali Algumas suposições deixaram de o ser, experimento agora a essência real deixada em cada interstício, em cada sulco, bebo-a, essa realidade, e sinto o travo amargo de que não desgosto e aquele outro, doce, que se calhar não quero. Afinal viver é um constante despertar para novos Eus. Reviver - ah, gosto de recordações! - é um acto que envolve vários misticismos e é indispensável possuir o poder de ressuscitar de entre os escombros do passado. Estive muito tempo num canto estreito, acabei por enlouquecer. Como num mito das cavernas por mim agravado, coloquei-me em posição de apenas ver as sombras das sombras... e deixei-me ensombrar... e assombrar. Transformei-me no meu próprio fantasma, fiquei num umbral, inerte. E, coisa medonhamente superior a todos os horrores!, tive consciência disso mas quis lá ficar. Um dia tentei falar e já não fui ouvida, tentei agir e já não tinha meios. Mais ou menos por essa altura, apercebi-me que o meu próprio funeral havia passado uns tempos antes. Vivi, enlouqueci e morri; agora ressuscitei e encontro-me num estado hiper-acordado, absorvo as coisas com uma percepção rápida e surpreendida que me faz sorrir. Nunca mais fico num canto estreito onde não caiba, intensa e inteira. Se pude renascer, se aqui estou e sou eu, então sê-lo-ei plenamente. Nunca mais afogo no peito pedaços de sentimentos. Quero dar-me e tomar o que me é dado, ser inspirada e inspiradora. Quero cumprir-me sempre como mulher. © Fata Morgana Avalon, 05 Outubro, 2005
Atravesso de uma forma quase sonâmbula o fogo cruzado dos olhares. Devolvo todos aqueles que me acertam. Mas nenhum me acerta em cheio. Pareço estar protegida por uma espécie de campo magnético, envolta em pertença a um poder que não é sequer exercido. Porém é tão efectivo! Chegada ao ponto-destino provisório, estendo o braço e depositam-me na mão o copo, sem palhinhas nem guarda-chuvas coloridos, apenas a mítica bebida. Agradeço com o sorriso que pouco depois se afoga no líquido de travo conhecido. Deambulo vagamente, mais ou menos ao sabor da corrente humana, e o esboço distraído de um passo de dança é o único indício de que estou ali. Fisicamente. Na realidade estou muito, muito longe, mas não sei onde esse longe fica. - Olá Morgana. Não ouço. Não paro. Solto o ombro tocado, esgueirando-me e desaparecendo numa rápida mudança de direcção. Mas a memória é uma coisa estranha e por vezes cruel. No dia seguinte quase só conseguirei recordar a voz tão conhecida que me chamou, a mão tão desejada que tentou reter-me. Ficarei a saber, tarde de mais, que afinal eu estava inteiramente ali. © Fata Morgana ![]() Imagem de autor desconhecido |
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