| Fata Morgana...
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...ou o Claro Obscuro |
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Avalon, 27 Novembro, 2005
![]() Foto de Richard McKibbin Nocturno de Varanda Nas asas da coruja solitária voei de espanto e a noite ficou tão mais bela Rondando as árvores não pousou em qualquer delas Foi uma evolução de majestade com aquela atitude de quase em câmara lenta rainha inusitada da minha noite citadina Não sei porquê pensei que o meu coração era o teu ninho e tu a minha alma pois só cantas quando voas, predadora. © Fata Morgana Avalon, 23 Novembro, 2005
A minha janela favorita
tem uma vista linda como todas as janelas a que às vezes falta apenas um olhar atento Através dela olho e há sempre alguma coisa que eu não tinha visto ainda Acordo e espreguiço-me debruçada para fora estranho-me e reconheço-me e estando pronta preparo-me ainda mais © Fata Morgana ![]() Pintura de J. W. Waterhouse Avalon, 22 Novembro, 2005
![]() Os sons do bosque são o meu silêncio, penso, enquanto caminho pelo meio das árvores sob um céu cinzento-escuro e amarelo, fantasmagórico, a ameaçar uma noite tempestuosa. Escuto os gritos e pios atordoados dos pássaros, que se preparam para a intempérie. Alguns vêm pousar-me nas mãos, nos ombros, nos cabelos. Falo-lhes. Nem eles nem eu estamos a pensar em acalmias primaveris; estamos excitados com a noite que se vai anunciando e faz descer cada vez mais sombras. As cobras não se intimidaram com a atmosfera fresca e andam nos caminhos, oferecem aos meus pés os seus dorsos, para que neles me equilibre, deslizando em complicadas evoluções. As aves voam para longe ao vê-las e eu ponho uma ou duas sobre os ombros, é bom sentir-lhes a pele fresca e macia a roçar-me o pescoço, e os abraços que me dão têm a medida exacta para jamais me fazerem transpor o limiar vida/morte, permitem apenas o olhar ambos os lados. Os pequenos animais que se vão refugiando nas tocas parecem mais assustados com os meus adornos serpenteantes do que com a tempestade que se aproxima. Eu sigo as vozes dos lobos, ao longe, a uivar. É junto deles que vou viver este espectáculo tão natural quanto perturbador, mas sobretudo cheio de uma energia que me convida ao relento nocturno, longe do meu Castelo. Amanhã estarei de volta. E mais forte. © Fata Morgana Avalon, 17 Novembro, 2005
![]() O riso é o meu estado mais comum. Não me refiro a expressões faciais mas a uma natureza risonha. Tenho na alma a fonte de um bálsamo qualquer que me lembra as rosas silvestres nos muros, tanto na cor tenra como no aroma forte mas gentil. O meu coração parece aumentar de volume quando olho para as coisas que prezo e salta doidamente, sempre que lhes toco. Raramente se contrai ou endurece, e isso, só perante a injustiça ou quando sinto medo. Mesmo quando me sinto infeliz, o meu choro é fluido e natural como o meu riso. Tem como essência essas mesmas rosas silvestres que crescem nos muros, e o coração mantém-se enorme e a saltar como doido... apenas se magoa nos espinhos. © Fata Morgana Avalon, 15 Novembro, 2005
![]() Recebi um presente muito bonito. Daqueles que não empalidecem na nossa memória, que podemos ver para sempre, com os olhos da alma, com a mesma nitidez que ele tem quando o olhamos em presença. Ora vejam se não é exactamente como eu digo, aqui está ele. Obrigada TCA! Um beijo meu para ti. Fata Morgana Avalon, 10 Novembro, 2005
Riso da Mente
Que noite quieta e escura... Nem as estrelas brilham. Não se vê a Lua e as árvores, paradas, dizem que o vento hoje não passa por aqui. No silêncio da madrugada ténue, ao longo do olhar que lanço ora no céu infinito, ora no fundo de mim, descubro o mesmo cansaço deste sossego tão manso. Porque não há ventania, chuva grossa, em revoadas, nem piam aves nocturnas; rompo eu em gargalhadas e rasgo de uma só vez toda esta melancolia. © Fata Morgana ![]() Louise Brooks (1906-1985) Foto extraída do filme MUDO: Now We're in the Air (1927) Avalon, 07 Novembro, 2005
Espanta-me o rasto sinuoso
dos passos dentro de mim ser invisível por fora Não haver alguém desperto a ler-me no olhar aberto os labirintos que eu trilho Não sei se fale dessa janela rasgada em que partilho demasiados enigmas. © Fata Morgana ![]() Pintura: I Am Half Sick of the Shadows (Detalhe) de John William Waterhouse Avalon, 06 Novembro, 2005
![]() A voz projecta-se até ao infinito Mas só o silêncio me leva ao lugar onde me aconchego quieta no teu olhar © Fata Morgana Pintura: Skywatcher de Susan Seddon Avalon, 02 Novembro, 2005
Com um ardor impetuoso tu atiras-lhe o corpo que se desenrola para longe de ti, com requebros graciosos e o braço triste que se estende na tua direcção. As sobrancelhas e os lábios com que a fitas e a segues, exprimem o momento de paixão eterna que ali existe. É genuíno. Sentes dolorosamente que ela vai sair do teu alcance e a intensidade dramática aumenta em todo o teu corpo, até se tornar insuportável. Seguras-lhe a mão no último instante, que parece mesmo um grito. E ela torna a enrolar-se até ficar cingida a ti, as bocas quase juntas. Tu olhas para ela como se estivesses a ver um milagre. Também para mim é impossível lembrar-me que são apenas os segundos finais de um pas-de-deux, num vídeo antigo. © Fata Morgana ![]() Rudolf Nureyev e Margot Fonteyn Foto de Autor desconhecido - Claro que os tenho todos, Rudi! - - Não. Não foi por causa do dia dos mortos. Que ideia!!! Para mim não há ninguém tão vivo como tu.... - Dito isto suspiro, na tristeza inevitável de ter mentido com a verdade. |
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