Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
Todos os direitos reservados © Fata Morgana, SPA
Avalon, 31 Janeiro, 2006

 

 
"Tomei a liberdade de fazer
exactamente
o que me ordenaste."


Depois,
quando to disse,
não te achei contente...
Mas porque faço carreira de mim mesma
não tenho a obsessão
da originalidade
nem medo de parecer obediente!


© Fata Morgana



Pintura de Frank C. Cowper


 

 
Avalon, 29 Janeiro, 2006

 

 

Guia-me quase sempre uma realidade abstracta. Pouco me dizem as aparências da realidade tangível, explicáveis pelo conhecimento especulativo, preponderantemente racional. Triturada e fantasista, como um número complexo, tenho maior afecto à minha parte imaginária. Prefiro escrever a lápis e ir ligando as ideias com laços. Faço por deixar alguns traços nas coisas e pessoas de quem gosto; e gosto de descobrir um sentimento de curiosidade onde poderia estar uma leve sensação de falta ou quebra. E sorrio para dentro, à tranquilidade com que espero aquilo que me mói porque sobretudo me tarda... e acho graça e quero ser mesmo assim.

© Fata Morgana


Foto daqui


 

 
Avalon, 23 Janeiro, 2006

 

 

Há o olhar que percorre o espaço a alta velocidade. E aquele outro que sente o peso de tudo quanto atravessa.
É provável e até mesmo eminente que se cruzem num instante lento e leve.
Farão lembrar um ribeiro em pleno Estio, cuja limpidez jura que a água se pode beber sem dano para uma morte desejada, entre os trevos. A renovação.

© Fata Morgana



Foto daqui




 

 
Avalon, 19 Janeiro, 2006

 

 
Nunca te disse que és o meu preferido
E agora
que to digo
não sabes porquê
Mas o silêncio do teu queixume
escondido
O sorriso sedento
a ponto de te secar nos olhos
toda a mágoa
e as mãos quietas
fundas
repletas
dentro dos bolsos
de carícias
é que me fazem meter as moedas
na ranhura do telefone público.

© Fata Morgana



Imagem daqui

 

 
Avalon, 15 Janeiro, 2006

 

 
Dormia num lugar
onde se deitam coisas sem valor
de costas para uma parede branca
esburacada
Tinha sonhos bonitos
antes de adormecer
a imaginação
que não perdoa mesmo
e levantava-se tarde
apesar dos passos barulhentos
no passeio
gostava de ver passar as raparigas

Um dia desapareceu
Deixou o espaço repleto de olhares
outrora insensíveis
e cegos
que agora o vêem
na parede branca
esburacada
que dantes nada tinha para lhes dizer

© Fata Morgana


Foto de Autor desconhecido

 

 
Avalon, 07 Janeiro, 2006

 

 
Perguntas-me se me vesti
ou se estou nua.
A intemporalidade feminina
que ouso invocar
pede aos lápis de cor mágicos
que pintem no meu corpo
vestidos com padrões que vão mudando

Descanso nos teus braços
um sono que me faltou dormir
quando criança
e nas tuas mãos deixo a chuva
inesperada
que dissipa as nuvens
e me traz de volta
a formidável lembrança
de mim mesma
apaziguada e tua

© Fata Morgana


Pintura da Gustav Klimt (Detalhe)


 

 
Avalon, 04 Janeiro, 2006

 

 
O Príncipe Aflito

O pássaro negro desceu do ramo onde estava empoleirado a cantar melodias propositadamente satíricas só para me aborrecer. Pousou no meu ombro e, arrependido de me ter espremido o coração durante um longo par de horas, começou a falar-me ao ouvido.

- Querida, não sabes viver. Olhas o céu e vês a imensidão, sem ver. Queres voar e aventurar-te a par com quem te agrada e canta de feição, como se isso fosse o mundo inteiro. E enche-se o teu coração, que eu julgava frio, só de pensares que és a bem amada desse desconhecido Cavaleiro, que te chama de sua Senhora. Como se isso fosse especial!

Olho-o inquiridora. E o pássaro continua, enfunando o peito cor de breu:
- Sim, tu és especial. Todos são especiais, sabes isso, Morgana... ainda melhor do que eu. Mas, minha querida... esse céu que olhas e vês como sendo imenso, é só uma miniatura do absoluto firmamento!
Suspiro e encolho os ombros, concedendo-lhe a pequena vitória ao afirmar, a seu contento - Bem sei, é uma miniatura. Porém...

... não quero voar no infinito
onde não se aventura
aquele que me quer bem.
Quero neste cantinho de céu
fazer do murmúrio um grito,
e do canto estreito,
a interminável lonjura...
Um lugar só dele e meu.

O pássaro negro arreliou-se. Bateu asas e fez alguns voos picados, rasando os meus cabelos, como se esperasse acordar-me. Por fim aquietou-se novamente no meu ombro e tornou a meter o bico no meu ouvido.

- Morgana, isso nem parece teu. Tu não podes viver num beco como se este fosse o céu! No infinito que agora renegas, tens o teu príncipe, aflito, às cegas, sem perceber porque é tão só... e também triste.

- Ah, se tal príncipe existe
não é melhor que o meu Amor de breu!
Vai-te embora
pássaro maldito.
Eu hei-de amar a quem se mostrar meu.

A ave negra voou para fora do beco infinito, e eu, Morgana, desatei a cantar e a menear as ancas, enquanto entrançava os cabelos longos para logo de seguida os desentrançar novamente, com um sorriso que chegava muito para lá do tal príncipe aflito.


© Fata Morgana



Imagem de Autor desconhecido :(


 

 
Avalon, 01 Janeiro, 2006

 

 
Abro o livro branco
só de negras letras cheio
esse que para mim escreveste
sem o saberes
e eu li
sem hesitar
roubei-o.

Gosto especialmente do tom de fundo
abro onde calhar
o teu livro
só de branco e preto
cheio
da capacidade de sonhar
cores que não existem neste mundo.


© Fata Morgana



Pintura de René Magritte


 

 
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