Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
Todos os direitos reservados © Fata Morgana, SPA
Avalon, 28 Fevereiro, 2006

 

 
É difícil entender as palavras de Elizabeth Frazer. Quando ela decide que deve ser assim, pronuncia-as misturadas com melismas e faz inflexões de voz - com que virtuosismo! - tornando o canto mais elucidativo do que o texto e colocando este como uma cortina misteriosa e enfeitiçante, deixando-nos só algumas pistas, frases claras que nos guiam pelos sentidos através das outras, que não conseguimos captar apenas com os ouvidos... E fica tão bonito!
Mas, há tempos, descobri um site com as letras das canções que ela canta, e vivi a experiência de seguir de uma forma diferente as emoções fortes que aquelas mesmas músicas sempre me transmitiram. Não consigo decidir se prefiro ouvir e ler, percebendo tudo, ou não. São experiências muito distintas, e o facto de ter alguns textos não me impede de voltar a sentir o feitiço das sombras, como dantes, pois claro que não decorei as letras (logo eu...). Escolhi este canto difuso como se fosse o Conto Mudo da minha Pequena História Ausente de Palavras, porque me revejo nas duas personagens da canção. E por isso a partilho aqui e agora.

© Fata Morgana


Song to the Siren
By This Mortal Coil (with Elizabeth Fraser)

On the floating, shipless oceans
I did all my best to smile
til your singing eyes and fingers
drew me loving into your eyes.
And you sang "Sail to me, sail to me;
Let me enfold you."
Here I am, here I am waiting to hold you.
Did I dream you dreamed about me?
Were you here when I was full sail?
Now my foolish boat is leaning, broken lovelorn on your rocks.
For you sang, "Touch me not, touch me not, come back tomorrow."
Oh my heart, oh my heart shies from the sorrow.
I'm as puzzled as a newborn child.
I'm as riddled as the tide.
Should I stand amid the breakers?
Or shall I lie with death my bride?
Hear me sing: "Swim to me, swim to me, let me enfold you."

"Here I am. Here I am, waiting to hold you."



Pintura de Patrice Stanley



 

 
Avalon, 25 Fevereiro, 2006

 

 
Pequena História Ausente de Palavras

I. Prólogo

Não há calma
nem há fogo
não há certezas
que me fazem falta
e não sei ter
nem medo
pois não as tendo
nunca as vou perder
não há palavras
quando deixo de saber explicar
nem explicações
que caibam em qualquer coisa que eu diga
não há zanga
não há complacência
nem riso nos olhos
que não sabem ler não há

II. Conto Mudo

III. Epílogo

Que coisa estranha
é um não que não devia doer!
Ficam as palavras
caladas na falta de razão para as dizer
e o desassossego
do silêncio que grita por dentro
a tentar romper sorrisos esforçados
esvai-se
cansado de não ter razão, mas sentindo-a,
até a deixar morrer.

© Fata Morgana



Imagem de autor desconhecido :(


 

 
Avalon, 19 Fevereiro, 2006

 

 

Pintura de Todd Murphy


A Mulher Pássaro

Dizem que é doida. Eu não concordo. Acho-a incomum, mas quase todas as pessoas sábias o são, também. Falo de uma mulher estranha que de vez em quando aparece no jardim, pela noite escura, deslizando sobre a relva - é a impressão que dá porque usa um vestido longo, que lhe oculta o andar certamente leve. Pára sempre no mesmo lugar, entre o arvoredo, e deixa-se ficar imóvel, como se estivesse a entrar num qualquer mudo entendimento com as árvores, a lua e as estrelas, os animais que palpitam sob as ervas, e a noite. Ou talvez ela já seja nocturna e não precise de absorver a noite, que mais parece sair de dentro dela.
Ao cabo de uns momentos que parecem séculos, a mulher estranha emite um silvo longo e pesante, enquanto abre os braços esguios e depois as mãos, vagarosamente, os dedos bem esticados, a cabeça um pouco inclinada para trás. Quando atinge a postura que dir-se-ia ser a certa, o silvo é substituído por sons lindíssimos - trinados, gorjeios, pios - muito semelhantes às vozes de várias espécies de pássaros, e os pássaros começam a aparecer, uns vindos das árvores mais próximas, outros de longe, e desatam a cantar junto com ela. Esvoaçam em seu redor e, aos poucos, pousam-lhe nos braços, e nas mãos, e nos dedos, nos cabelos compridos, nas pregas da saia.
Nunca descobri como acaba o ritual, que deve ser mágico, porque mesmo sem sono, adormeço sempre no meu esconderijo e quando acordo ela já desapareceu. Mas se eu fosse a mulher estranha que canta com os pássaros, contaria a cada um deles algo sobre mim, para que depois voassem levando nas asas os meus sonhos, os meus medos, os meus feitos, os meus segredos, pedaços de mim. Tornar-me-ia leve, assim, dando-me ao vento.

© Fata Morgana



Sacred papyrus
The painting, hand made on papyrus-paper, represents the bird of soul above a prayer in demotic writing and a woman in adoration. It derives from a painting of the I - II century B.C. preserved by the Agyptische Staatsammlung in Munich
.




 

 
Avalon, 12 Fevereiro, 2006

 

 
O sonho foi teu. Mas quando acordaste não te lembravas de nada e achavas que nem tinhas sonhado. Em contrapartida eu, que nem conseguia dormir, sabia perfeitamente, de cor, cada detalhe do teu sonho. Tinha sido sugada para dentro dele e não conseguia soltar-me.
Primeiro queria que a preguiça de viver te largasse. Pedia-te para escolheres um susto, qualquer que fosse, o maior de todos, para poder pregar-to. «Vá, escolhe um susto!» - era o que eu tentava dizer, mas assim que entreabria os lábios gerava-se o vácuo e o som não se propagava. Tal como o teu sonho. E para ti eu só existia dentro dele.
Os demónios, que nunca cessavam de te atordoar, fartavam-se de rir da minha situação. Não os subestimei, por um momento que fosse, mas procedi como se os não temesse porque continuava a olhar para ti, assombrada por tudo o que os anjos consoladores, à minha volta, sussurravam acerca do nosso amor... «É precioso... é precioso... Olha como ele fala, é como se te ouvisse a ti, Morgana. É aí que está a tua força, muito maior que a daqueles demónios.» E eu sentia tanto amor...
Toda aquela confusão começou a parecer-me inventada por mim. Estou a endoidecer, pensei, e talvez seja motivo para isso... mas quero sair deste sonho.
Apanhei e reuni todos os pedaços de mim mesma - parecia que tinha sido retalhada por um louco! - e refiz-me. Demorou, mas fiquei novamente inteira.
Choveu. Eu quis andar à chuva, que me pareceu doce, morna, percebi logo que era a chuva do esquecimento. Parcial, pois assim que retomei a atenção o teu sonho voltou a sugar-me. Mas, talvez porque eu estava segura, e sobretudo inteira, tudo se tornara diferente. Eu tinha passado a viver uma existência dupla: dentro e fora do sonho.
Quando voltei a falar-te, o som estava solto e pude articular as palavras, que me pareceram exactamente as mesmas que já tentara dizer-te... mas eram outras. Eram palavras do lado de fora: «Abre os olhos, é só um pesadelo!...»
Os anjos que te consolavam começaram a tentar abrir-te os olhos, para me veres. Pareceste muito surpreendido quando te disse «Adeus». Mas não prestei muita atenção, para além de o ter notado. Afastei todos os demónios que me tinham atordoado desde o primeiro momento e deixei-os para trás, em fúria.
Fiquei sem saber quais eram os verdadeiros anjos e os verdadeiros demónios. Tornara-se óbvio que, independentemente da espécie, naquilo tinham estado todos de acordo. Menos eu.

© Fata Morgana



Pintura de Johann Heinrich Füssli

 

 
Avalon, 10 Fevereiro, 2006

 

 
Queria a inocência perdida
o olhar claro
sorridente
a boca
flor aberta
de canções por desfolhar
Queria sentir aquele rubor doce
em vez da febre persistente
como se ainda fosse
pequenina

Queria franzir as sobrancelhas
dizer «não!»
- e que não acontecesse
realmente

© Fata Morgana



Pintura de J. W. Waterhouse


 

 
Avalon, 08 Fevereiro, 2006

 

 
Estive na minha varanda
de árvores
e de estrelas
Deixei-me ficar
só pensativa
a vê-las.

No céu as constelações mudas
ornatos requebrados de amores,
alguns já extintos,
como
muitas das estrelas que ainda vemos.

© Fata Morgana



Foto daqui


 

 
Avalon, 04 Fevereiro, 2006

 

 
Tenho pena que as palavras
sejam utensílios tão toscos
gostava de conseguir
exprimir-me.
Mas projecto-me nas coisas,
nos acontecimentos,
ao mesmo tempo que os absorvo
e
sinto
mas não sei dizer.

Sentir é algo que acontece
num lampejo de verdade
que pode ser perene
e uma só palavra
é já uma eternidade de estropiações.

© Fata Morgana



Pintura de Oliver Brooks (Detalhe)


 

 
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