Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
Todos os direitos reservados © Fata Morgana, SPA
Avalon, 27 Março, 2006

 

 
Naquele dia sem sol
perdidos numa cidade conhecida
descobrimo-nos num olhar de forasteiros loucos
Instintivamente adivinhámos
que ali estávamos muito para além do acaso
e as palavras que trocámos
disseram coisas diferentes
dos seus habituais significados

Sob um céu imaginário
vieram pássaros e cantaram o ocaso
de tudo o que era antes daquele momento
E numa estranha cerimónia
deixaram cair rosas vermelhas sobre nós
e enlaçaram-nos também com heras
Cantaram enternecidos enchendo silêncios antigos
e puseram-nos os ninhos ao dispor

Disseram que as estrelas eram todas nossas
(as que cada um fizesse brilhar
nos olhos do outro e no fundo de si mesmo)
Mas cada um de nós escutou o seu coração somente
e se hoje trocamos estrelas num simples olhar
com uma intimidade espontânea e poderosa
é porque sempre soubemos que aquelas aves ruidosas
eram as vozes dos nossos pensamentos

© Fata Morgana



Foto de Nathan


 

 
Avalon, 12 Março, 2006

 

 
Poema Teu

Não sei descrever-te realmente
Apenas te vejo nos meus eremíticos silêncios
quando penso em ti
líquido
livre
suspenso no éter
Uno
singular
inteiramente fragmentado
e provocador das leis do mundo
És um cardume de aves
desenhando o espaço
e tornas a alvorada
em vez de fresca
ardente

© Fata Morgana


Rudolf Nureyev - Pintura de Carole Estrup

 

 
Avalon, 08 Março, 2006

 

 
O tempo passa
Eu fico ou já passei

Como o relógio parado
na hora da pancada certeira
que levou
Ou a ideia solta
cruzando o ar
veloz e desordeira
impossível de cronometrar

É relativo o tempo e afinal eu também
Pois simultaneamente fico e já não estou.

© Fata Morgana



Pintura de Dali
1954 - Soft watch exploding in 888 pieces after 20 years of total immobility
(Saint Petersburg Museum - Florida - USA)



 

 
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