| Fata Morgana...
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...ou o Claro Obscuro |
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Avalon, 30 Junho, 2006
Tornei a olhar para trás, em busca de confirmação. Novamente me pareceram estranhas e distantes de mim, todas as coisas que tenho acarinhado. Como se não existisse lugar algum onde eu não fosse estrangeira, e isso, inesperadamente, fazia-me diferença. Pensei nos sentimentos que deixara entranhados nas árvores que abraçara nos meus caminhos favoritos; nos meus pés a desenhar percursos de ideias na terra; nas águas profundas com que tantas vezes partilhei a nudez; na Lua a quem contei os segredos, com os olhos cheios de estrelas. Nada disso estava comigo. E até o meu pássaro desaparecera do meu coração. Da cavidade oca saia um som desagradável que lembrava uma caixa de lápis vazia. Sentei-me, um pouco perplexa. Pela primeira vez fiquei parada a pensar na vida em vez de a viver, mas sentia que não estava realmente parada. Olhando a brancura dos meus braços, seguindo o percurso das veias, percebia uma continuidade estranhíssima que se produzia, alheia a mim, às minhas sabedorias e impulsos, às minhas vontades e decisões. Era-me impossível parar. Estava em movimento, como sempre, mesmo que escolhesse não estar. Foi assim que soube que os lápis todos que gastei não eram «eu»; nem os abraços, ou os passos marcados; ou a nudez molhada e os segredos. Nada disso era «eu». Eu estava ali, inteirinha, quieta mas ávida. Pronta para os caminhos que aos meus pés se mostrassem desejados, rasgando-os, aconchegando-os. E tinha as mãos cheias de lápis de cores e, de certeza, os olhos cheios de estrelas... © Fata Morgana Pintura de Giuseppe Dangelico Avalon, 25 Junho, 2006
Fecho os olhos sossegada
e passo a língua no sorriso Provo nos meus lábios o travo de um veneno subtil. Não sei porque faço estes sorrisos como se fossem habilidades porque um dia morro envenenada. © Fata Morgana ![]() Pintura de Klimt (Detalhe) Avalon, 19 Junho, 2006
Se possuísses um aparelho leitor de sentimentos
que ligado a mim te desse o meu electrocardiograma emocional Talvez não te baralhassem as muitas encruzilhadas percorridas pelo meu sangue tão quente E as minhas emoções registadas num gráfico far-te-iam sorrir quase sempre. Mas eu roubar-te-ia o apetrecho Porque gosto que me conheças a essência quase perfeitamente como tens demonstrado conhecê-la, quase sempre. © Fata Morgana ![]() Avalon, 15 Junho, 2006
Dos dias abafados
retive a frescura das perguntas E das madrugadas frescas guardei o calor das estrelas, sóis distantes que senti dentro de mim. Nas vozes dos pássaros ouvi promessas de que ri descrente E cantei silenciosamente hinos de glórias que inventei com a certeza das pedras tão quietas. Agora vejo as aves pousadas nos muros abafados de silêncio e as pedras voam alegremente com asas tão frescas que podem roçar os sóis distantes. © Fata Morgana ![]() Avalon, 10 Junho, 2006
Tento escrever mas todos os utensílios de escrita avariaram. Foi o fio do pensamento que se ensarilhou nos dedos, oh... e os dedos estão doridos de tentar desfazer os nós das palavras esganadas e já só se remedeia isto a golpes de estilete. Penso que o prefiro, o estilete, assim como as tábuas enceradas, em vez das teclas e do ecrã. Mas segui os caminhos antigos dos antiquários e perdi-me no meio dos objectos, que se tornaram afásicos. Também descobri que demasiadas coisas mudaram de nome e não sei como se chamam agora. Tudo o resto - a ordem - é um caos intenso de mudanças ocas que me dizem «nada...» e não param de ocorrer, a ponto de se tornarem enfadonhamente constantes, mas afastam-me do esboço vago que me interessa. Esboçado na improbabilidade, ainda incompreendido e obscuro, pede-me muito tempo, muito depressa, e julgo perceber, entre outras coisas muito intrigantes, que talvez seja boa ideia voltar ao princípio. Portanto recomeço, e tento escrever. Mas os utensílios de escrita continuam avariados e desta vez foi a caneta e até mesmo o lápis. Apenas consegui um borrão negro e um bico de carvão partido entre farpas de madeira afiadas que se cravaram nas pontas dos meus dedos. O borrão negro cravou-se-me na alma. Depois descubro que tudo isto se passa muito longe dos utensílios, pois através de nenhum deles poderia exprimir-me, assim escondida num grito. Ou num sorriso. © Fata Morgana ![]() Imagem de Alexandre Offort Avalon, 03 Junho, 2006
Gosto das flores murchas
que me contam histórias e me mostram a pele e dizem «foi tudo tão depressa...!» Gosto de luas veladas que escondendo encantos me deixam adivinhá-los sem perguntar nada Gosto das minhas mãos que dizem sempre a verdade e da verdade que os meus olhos escondem num sorriso. © Fata Morgana ![]() J. W. Waterhouse [Estudo] |
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