| Fata Morgana...
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...ou o Claro Obscuro |
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Avalon, 31 Agosto, 2006
Olho o silêncio.
Acordo os sentidos, estou ausente do exíguo que ocupo e é apenas um utensílio (uma caneta de tinta difícil de escorrer). Vou ao fundo de mim ao alto de mim ao longe do ser buscar tudo o que me grita inteira e ver-me onde sou borrão, não de tinta, mas de sangue vivo. Ouço a música de mim... descubro-a feita de vozes violinos harpas segredos e vento da floresta. Assim que a sinto percebo que não sou daqui e que não sei voltar a casa. E há uns olhos profundos que vão revelando os motivos que me trouxeram. E há ainda o sorriso com que me acomodo na estalagem contente tão contente de ter por quem doer. © Fata Morgana ![]() Remembrance, de Oleg Avalon, 20 Agosto, 2006
Não sei porque tenho um anjo
ao pé de mim que me diz tão firmemente: Vai...! - e eu confio nele, inteiramente. Não sei porque tenho um anjo longe de mim que a todo o momento pede: Vem...! E eu sei que é o mesmo, desde sempre, e o lugar onde me manda é um, somente. © Fata Morgana ![]() Pintura de Herbert Schmalz Avalon, 15 Agosto, 2006
Queria um dia ser muito velha. Ter rugas bonitas, sulcos das expressões traçadas na minha vida, marcas dela em mim; e cabelos muito brancos, longos como a minha existência e lisos como a fluidez de plenamente a ter vivido, inocente e cheia de silêncios acertados. Queria que os meus olhos, com o passar do tempo, se tornassem candeias, muito claros; ou então negros como a transparência que se esconde no fundo de um poço sem fundo (atiras uma pedra e ela sai do mundo). Os braços, meigos de abraçar, longos e fortes e magros, de feiticeira; e os ombros, pouso das aves cantoras, dia e noite. O peito, um leito doce de encantos confortáveis, ao ritmo compassado de uma respiração lenta e sábia de experiências, e o coração, leve como um canto, enorme como os vulcões sossegados. O sorriso, finalmente verdadeiro, largo como uma planície onde eu pudesse avistar todos os meus desejos, consumados ou não; e o regaço... sempre guardado para abrigo do Amor Maior, pois nele é que se verteriam todos esses dons que eu sonharia ter, se ousasse tanto, e se conseguisse um dia ser tão velha. Todo o sangrar de mim se concentraria inevitavelmente nos pés de bailarina com muitas danças por cumprir; mas creio que o restante haveria de impedir que até mesmo eu pensasse nessas danças mais vezes do que... um imenso quase nunca. © Fata Morgana ![]() Foto de autor desconhecido Avalon, 12 Agosto, 2006
Se ao caminhar
noctívago e silencioso me estenderes a mão e ela for um ninho Confio-me a esse abrigo despojada e calma seja ele guarida ou carinho fugaz. Se pela madrugada partir nas asas lestas assustada e forte Será para fugir do perigo de chegar o dia em que eu deva migrar e não seja capaz. © Fata Morgana ![]() Pintura: Wounded Angel de Hugo Simberg (detalhe) Avalon, 08 Agosto, 2006
Um dia vou olhar as tuas mãos
conhecedora de ali estar inteira. Vou pensar no assombro de ser nua aos teus olhos e ver-te sorrir e assentir sabendo-me o pensamento. Quando tocar aquela música tétrica que me chamou (tão triste!) dir-te-ei "era esta, lembras-te, quando eu ia fugir e depois esperei por ti?" Nessa altura saberei porque me viste tão serena naquele jardim onde me julgara tensa. Agora ainda não aprendi nenhuma dessas coisas. © Fata Morgana ![]() Pintura de Jean-Baptiste-Camille Corot Avalon, 05 Agosto, 2006
Ser hoje é ser mais viva.
E não sei se saberei sê-lo mesmo sendo. É tão mais fácil resvalar na beira do abismo de sempre com a solidão que já conheço. Estende-me a mão e diz: vem sou eu, tão tua amiga... Ignoro-a. Deixo-a perder-se na impaciência e deixo-me ficar neste íngreme declive enquanto penso em voos no infinito quase resvalada do limiar dos sonhos. © Fata Morgana ![]() Pintura de Edward Robert Hughes Avalon, 01 Agosto, 2006
Todos os dias hei-de pensar nessas horas sem horas.
Sentir como sou feita delas e que já não existo porque elas passaram; sentir como elas ficam para sempre dentro de mim e eu delas, renovada, outra, inteira-de-bocados-soltos, transformada num sopro-eu etéreo - verdadeiramente viva. © Fata Morgana ![]() |
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