| Fata Morgana...
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...ou o Claro Obscuro |
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Avalon, 27 Outubro, 2006
Aquele lugar sempre fora seu. Talvez por quase sempre o encontrar deserto e um pouco assustador, mas nunca se sentia só ou assustada quando se encostava ao muro velho de pedra e se perdia a olhar para longe. Sabia que procurava coisas que estavam dentro de si mesma. Preferia fazê-lo nos dias cinzentos, em que o céu se confundia com o mar e este com o rio, e o rio era apenas um pouco mais escuro do que as pedras do muro, a que se encostava como se fosse um pequeno barco a chegar de muito longe. Outra vez o longe. Tudo lhe ficava tão distante... A sua alma, as suas recordações, os seus suspiros profundos, os sonhos. Era exactamente o primeiro suspiro que lhe mostrava que já não estava bem ali, que também já fazia parte da lonjura. Por mais que quisesse agarrar-se, não conseguia mais do que sentir as mãos geladas sobre as pedras e pensar, são as minhas mãos. Mas isso não a interessava tanto como os gritos das gaivotas. Um dia em que ali estava tão só como de costume, imaginou uma voz ao seu lado que lhe dizia, és tão bonita, e não pôde deixar de sorrir. Não, não sou, és tu que me vês assim, apenas porque eu imaginei que me verias assim. Sem se preocupar com a resposta, a voz continuou. Eu não entendo como é possível olhar para ti e não te achar muito bonita. Sentiu um pequeno sobressalto, verdadeiro. Mas nunca ninguém olhou para mim, e confirmou com um leve tremor na voz, nunca ninguém olhou para mim... Nesse momento umas mãos quentes pousaram nas suas - aquela espécie de fantasia estava a tornar-se persistente e muito próxima. Mas eu estou a olhar para ti agora. - Oh, isso é porque eu não te fugi! Tentei, sabes? Mas quando o fiz já era tarde e não fui capaz. ... No dia seguinte acordou novamente junto dele e, como sempre, não pôde deixar de sorrir. Levantou-se, enfiou a sua roupa de anjo - gostava de chamar assim à camisa de noite pequenina e branca - e foi à cozinha buscar o pequeno almoço. Apetecia-lhe tomá-lo na cama e ele ainda dormia, por isso preparou um tabuleiro com coisas para os dois. Continuava sem acreditar em nada. Porém, momentos antes, no quarto, tropeçara em dois pares de sapatos e notara vários outros objectos que não lhe pertenciam, emparelhados com os seus. Porque não trilhar o caminho que tudo à sua volta mostrava estar dentro da sua alma clara e fora da sua imaginação mórbida?... © Fata Morgana ![]() Pintura de Lou Crocket Avalon, 15 Outubro, 2006
![]() Estava sentada na cozinha, segurando uma grande chávena de café bem quente. Na mesa, biscoitos um bocadinho duros e um bolo de chocolate fresco. Não era dia de comer maçãs e saltar refeições sem reparar que estava cheia de fome, como tantas vezes fazia. As gatas corriam em volta, engalfinhadas por causa do rato falso de brincar. Tudo era tão doméstico e ao mesmo tempo, sentia que a diferença dali para uma gruta isolada num penhasco não seria assim tão imensa. Isso dava-lhe prazer. Lá fora o vento uivava e não andava ninguém. O dia cinzento convidava aos interiores. Ela queria sair. Nada melhor do que sentir os cabelos a redemoinhar nos ombros, como se quisessem soltar-se. Às vezes, em dias assim, apetecia-lhe cortá-los ao vento, mas o resultado final não lhe seria indiferentente. Não desejava ficar sem os seus cabelos compridos e não sabia aonde o vento os levaria. Acabada a refeição matinal, tardia, pegou na tesoura e saiu. Fechou a porta e parou uns instantes na soleira, sentindo o ar fresco a gelar-lhe o rosto e as mãos. Olhou para o lado do mar, que não se via dali, mas ouvia-se. Devia estar magnífico. A maresia trazida pelo vento entrava-lhe nas narinas e deixava-a com o nariz vermelho e húmido, obrigava-a a fungar, como quem tivesse chorado um bocadinho. Respirou fundo e começou a andar decididamente sobre o relvado, até às traseiras rochosas do jardim, ao encontro das suas preciosidades. Lá estavam elas, lindas, livres, puras como nenhumas outras. Sorriu-lhes. Porque nasceriam lírios vermelhos nos rochedos do seu jardim? ... Estava gelado. Assim que entrou em casa sentiu o cheiro do almoço, que fumegava nas panelas. Era bom voltar ao calor do lar. Onde estaria ela? Chamou-a. Quase logo uns passos apressados responderam ao seu apelo e o corpo conhecido esmagou-se contra o seu, num abraço que parecia ser, também, um esconderijo. Ela não era de se esconder, mas estava a fazê-lo, e havia ainda a estranheza do formato indisciplinado da cabeça, que lhe pousava no ombro enquanto ela ria e lhe dava beijos pequeninos no pescoço, como se pedisse alguma coisa. - Oh... que aconteceu ao teu cabelo? - Tinha de escolher. Ou cortava os lírios para o enfeitar ou o deixava junto deles. Ele entendeu. E o almoço estava uma delícia. © Fata Morgana Avalon, 12 Outubro, 2006
Os sonhos e as quimeras estavam guardados no meu bolso, como se fossem rebuçados, Podia tocar-lhes e pensar que mais tarde provaria aquelas doçuras, tinha-as ali à espera que a minha língua se enrolasse nelas. Depois colar-se-iam no céu da boca, escorrendo sucos encantadores. Caminhava pela rua, com o livro debaixo do braço, um pouco arrepiada na manhã fresca de Outono, mas sabia-me bem e os passos eram silenciosos nos sapatos rasos de sola mole, presos por fitas negras que se cruzavam acima dos tornozelos. Sentia que fazia parte da quietude daquela manhã ainda tão sonolenta de Domingo. Passado o portão, entregue ao arvoredo frondoso e húmido da chuva recente, embrenhei-me solitária e orvalhada de desejos inexplicáveis, que uma ocasional pinga grossa exacerbava ao cair pesadamente sobre mim, e apressava o andamento, o saibro vermelho a gemer sob os meus pés. Sentei-me num muro de pedra e abri o livro. Estava a ser sugada para longe. Longe das árvores, das palavras impressas, do frio; longe de mim. «Não sei saber» e «não sei ser daqui» - caminhos cegos onde fechei os olhos mas não pude, mesmo assim, ver. Tirei um sonho do bolso e provei-o, ávida de ser. Era de um amargor arguto, sabia a medos subtis e o livro fechou-se nas minhas mãos e eu deixei-me escorregar até sentir os pés no chão, dormentes do frio. Recomecei a andar, enquanto o sonho azedo derretia na minha boca, e entrei na casa de chá. Bebi tília a escaldar e comi uma fatia de bolo de chocolate. Não havia mais ninguém com quem sorrir. Fiquei ali, a regressar a mim, devagarinho. © Fata Morgana Avalon, 09 Outubro, 2006
Criança assustada.
Vespeiro de medos voadores à solta Sol que chora onde todos vêem o sorriso luminoso. Criança acordada enquanto o sono reparador cura quase toda a gente. Criança sozinha que à procura dos seus iguais descobre o sabor azedo do silêncio. Cada criança tem os seus medos cada insónia os seus pesadelos cada silêncio os seus fantasmas. Nenhum consolo. Criança, cresce. © Fata Morgana ![]() Imagem de autor desconhecido Avalon, 04 Outubro, 2006
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