| Fata Morgana...
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...ou o Claro Obscuro |
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Avalon, 11 Novembro, 2006
Um dia encontrei o lobo. Ele disse-me «gosto de ti» e eu fiquei contente, pois há muito que o espreitava de longe e também gostava dele. Pensei que estava segura. Sentia que não estava. Falámos da nossa floresta. Ambos sabíamos como eram belos os seus caminhos solitários, que tantas vezes havíamos percorrido separados, antes de nos encontrarmos. Falámos das noites misteriosas, de como as árvores e as estrelas, as folhas e as pedras no chão, pareciam ganhar vida nas horas mortas e todas falavam as suas línguas. «É preciso aprendê-las para não ter medo da floresta». O Lobo não tinha. Eu também não. E sorríamos um para o outro, como dois iguais. Muitas vezes nos misturámos, ora nas clareiras, ora no meio do arvoredo mais cerrado, e passámos juntos muitas luas, em estranhíssimas conversas que nos tornavam cada vez mais próximos. Era bom ver-lhe o vulto negro recortado à luz do luar, fazia-me estremecer e abraçar os joelhos de encontro ao peito. Esmagava os seios nesse gesto, tal era o desejo de que fosse sempre o Lobo em vez dos meus joelhos. Ele percebia. E dizia «os teus passos, sinto-os dentro de mim há muito tempo, sabes?» e eu assentia, mesmo sem compreender muito bem, mas sabendo que seria devorada. Era inevitável. Era um regresso. Por isso não me mexia e ficava calada a ouvi-lo uivar, enquanto lhe reconhecia a profundeza. A voz vinha-lhe de muito fundo e dizia-me coisas igualmente fundas. Gostava de conseguir uivar assim... Também tinha mágoas e mistérios, também eu era longínqua no dentro de mim, mas não me era fácil tirar de lá as coisas que queria. © Fata Morgana ![]() |
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