Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
Todos os direitos reservados © Fata Morgana, SPA
Avalon, 10 Novembro, 2007

 

 

Em vão procurava alhear-me. Queria vogar, no meu modo vagabundo de ficar distante de mim e de quem me rodeia, lunática, de olhos no longe. Mas a atenção indesejada prendia-se e prendia-me aos rostos de quem se cruzava comigo, fazendo-me tecer conjecturas, um pouco doidas, algumas. E de repente vi-os.
Fiquei paralisada pela surpresa. Não olhei para ela, avaliei-a em visão periférica, era precisamente enjoativa. E ele, a ele poderia não ter sequer reconhecido, não parecia o mesmo mas outro com a mesma cara, as mesmas mãos, o mesmo vulto. Senti-me fascinada pelo desconhecido que assim se me revelou abruptamente. Como seria aquela pessoa?

Do outro lado da rua, eles evoluíam em câmara lenta, e reparei nos olhos que ele pousava nela e também que não a via realmente, via outra. Uma pessoa imaginária. Alguém que correspondia a uma imagem que vinha de dentro dele e ele lhe emprestava. Nenhuma cumplicidade real, ela estava fora e ele estava dentro. Cá fora apenas um não-ser, de modos vagamente apressados e desatentos. Esmorecidos.
Quando finalmente acabaram de passar, senti-me muito mais só, muito mais livre. Podia soltar os pássaros de mim, em voo rasante aos sonhos, como tanto gostava. Sorri. Creio que estava profundamente surpreendida e um pouco divertida, também. Aquilo mostrou-me que havia mais do que um vértice no meu olhar. E era bom.


© Fata Morgana



Imagem da autoria de Nicoletta Ceccoli

 

 
Os Meus Castelos
 
Arquivos
 
 
Listed on BlogShares