| Fata Morgana...
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...ou o Claro Obscuro |
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Avalon, 24 Janeiro, 2007
As minhas coisas favoritas estão quase sempre guardadas há muito tempo e cheias de pó. Gosto de procurar memórias dentro de caixinhas, abri-las e dar com as flores murchas que foram causa de tantas coisas, e é bom que estejam debaixo da camada de pó-esquecimento-parcial, que as torna outra vez surpreendentes. Sempre gostei de flores murchas. Têm qualquer coisa que as remete para o domínio do maravilhoso, uma fragilidade que sabe ser persistente, linda. Hastes que quebram facilmente, cores desvanecidas, um aroma subtil, distante. Nenhuma dor intolerável, mesmo que seja a flor de um rompimento. Tenho muito cuidado com as minhas flores mortas, para não se estragarem, para continuarem a trazer, intactos, os momentos especiais a que estão associadas. Momentos em que fui, e fui de um ser tão verdadeiro, que é bonito! Oh, mas há também as flores frescas! Não estão metidas em caixas debaixo de uma camada de pó-esquecimento-parcial. Estão soltas, e - claro! - vivas, não me pertencem, apenas as encontrei... ou elas a mim. São exigentes, voluntariosas, afligem-me. Palpitantes, têm espinhos onde corre seiva viva e cravam-se-me fundo, fazem-me sangrar e o meu sangue junta-se à seiva, num líquido-verdade, que dói, dói, dói! Uma dor inquietante. E dizem: «Encontrei-te no tempo sem tempo», ou então - «vem, eu estou aqui, quero-te». Têm o aroma forte, inebriantes as cores. Ai, como são persuasivas, tão perigosas. Estão no mesmo plano temporal que eu, não é preciso que ocorra um improvável rasgão no tempo para me levar de volta ao passado, o seu apelo é - «agora! Agora!», e sim, eu quero, de um modo descrente, mas quero mergulhar nas pétalas frescas, com a beleza e os perigos. Inteira. Apesar de todo o meu desejo de hoje abraçar as flores da minha vida, não esqueço as caixas de memórias desarrumadas e poeirentas, onde jazem as flores mortas que me fazem ainda sorrir suavemente. Porque sou contemplativa e sei que é tão fácil perder-me no moto perpétuo de ser-hoje. E o que eu sinto é: «Não tenho tempo para mim agora»! A verdade é que o passado me fascina profundamente. E, se penso em mim, então estou apaixonada pela Morgana do passado, tal como daqui a umas décadas vou estar apaixonada pela Morgana que sou hoje, tão aflita com as rosas vivas. Estas, depois, serão como as outras, irremediavelmente mortas, guardadas ao pó, desvanecidas... Mas - ai! - a diferença é que nunca se tornarão indolores. Porque é em busca delas que tenho andado há tanto tempo. Será insuportável tê-las deixado morrer, e depois não poderei gostar, nem sequer um pouco, de uma Morgana que não tenha caminhado hoje sobre as suas rosas, apertando-as, não de encontro ao peito, mas dentro dele. Por isso vou misturar-me com elas, já. Agora. Sim... © Fata Morgana ![]() Avalon, 19 Janeiro, 2007
Se eu soubesse ser eu sem me doer era tão mais líquida Uma chuva pequenina a escorrer pelos interstícios de toda a secura à minha volta Lânguida e quase solta de nuvens negras. Sim, se eu soubesse ser eu sem me doer, era tão mais líquida. Mas não sei. Sou densa, como pedras de gelo que não escorrem pelos interstícios de toda a secura à minha volta, incapaz de navegar lânguida e quase solta de nuvens negras. Persisto nesta forma de ser, sinto perfeitamente a trajectória do meu sangue gelado que me faz estar sempre ausente num silêncio frio que magoa... e inebrio-me mesmo um pouco, em mim, dormente. Suspeito-me resoluta, solitária e altaneira. Não permito que o fogo guardado no meu peito crepite livremente. Porquê... porquê...? © Fata Morgana ![]() Avalon, 15 Janeiro, 2007
:) Não abandonei o meu Castelo. Deixei-o aberto para os meus amigos, como sempre, já que tenho andado longe. Longe, mas nunca esquecida. Este lugar é-me caro, está cheio de tudo quanto conheço e gosto, atrai-me sempre de volta. Ainda bem que outros lhe dão vida na minha ausência. Obrigada. Continuem a vir, sempre que vos aprouver. Fata Morgana |
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