| Fata Morgana...
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...ou o Claro Obscuro |
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Avalon, 23 Março, 2007
Era uma pequena taberna isolada numa planície árida, a várias léguas dos povoados mais próximos. Sentia-se que era o meio caminho de estranhos viandantes de proveniência obscura, tão obscura quanto o seu rumo, que os levava a passar ali e a parar para uma pinta de cerveja ou uma malga de vinho a regar um naco de pão com presunto. Traziam sempre nos olhos o brilho fantasmagórico de quem andasse pela beira dos abismos mais negros, e contavam histórias incongruentes de miragens e assombrações que confundiam os caminhos na vastidão da planície, que tinha fama de lugar sinistro. Alguns demoravam-se um dia ou dois, recobrando forças num dos pequenos quartos do primeiro andar, toscos mas limpos. Porém, as noites não eram tranquilas. À hora rubra do sol-pôr levantava-se uma inesperada ventania que assobiava à volta da casa isolada, fazendo bater as telhas e estalar as portadas grossas. De apaziguador, havia apenas a mulher do taberneiro. Era um mistério aquela criatura graciosa e plácida que ajeitava o avental com os modos delicados com que tocaria o mais rico dos tecidos, e não havia memória de quando, como ou porque razão fora ela ali parar, casada com um homem tão grosseiro e brutal. Um dia chegou um cavaleiro verdadeiramente extraordinário. Tinha no olhar o fogo da inquietude interior, à qual nenhuma assombração poderia sobrepor-se assim como qualquer aparição padeceria de invisibilidade, pois aqueles olhos estavam obstinadamente voltados para dentro. Também a grosseria do estalajadeiro e a suavidade da sua tão bela mulher lhe passaram despercebidos. Mas ela, que parecia sempre tão tranquila e distante, assim que o viu chegar sentiu um sobressalto. As mãos amarrotaram a estopa do avental, depois enclavinharam-se sobre o peito, onde o coração lhe saltava doidamente, e, sem entender porquê, ela sabia "é ele!" E os passos com que lhe levou o grande prato de sopa de carne eram inseguros e as mãos deixaram tombar o copo de vinho sobre a mesa. E ela sentia-se corada, com os olhos cheios de lágrimas de um desespero que não era capaz de explicar a si mesma. O cavaleiro chegara tarde e trazia o cavalo estafado. Teria de ficar na noite mais escura - tão mais escura, sem que se pudesse dizer porquê! - e ela foi preparar-lhe o quarto.Apanhou rapidamente um ramo de alecrim, que pôs num pote sobre o parapeito da janela, para que o vento ao passar entre as frestas de madeira tosca trouxesse consigo a presença de um aroma acolhedor; colocou mais um cobertor na cama e deixou o seu pequeno livro, o seu tesouro, junto do jarro de água fresca. Mas não bastava. Não bastava. E não podia convencer-se a descer, para o hóspede subir, sentia-se desolada e perdida, mas não tinha mais nada para lhe deixar e isso fazia-a chorar, grossas lágrimas, quentes. Quase sem dar por isso, despiu-se e soltou os cabelos. Foi até à cama, abriu-a, e ali deu largas ao seu estranho desgosto, feito de espanto e desejo. Procurou-se. Descobriu-se, percebeu como era linda e triste, como tinha a força imensa feita da fragilidade que não quebra jamais. Despojada, vazia de tudo quanto lhe era familiar, mas plena de uma coisa nova que lhe ficara tão fundo e não sabia ainda como nomear, abandonou o quarto, deixando a cama meia desfeita cheia das suas lágrimas, dos seus odores, dos seus cabelos. Ninguém mais a viu nessa noite. Nem nunca mais. © Fata Morgana
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