Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
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Avalon, 21 Abril, 2007

 

 

Do outro lado do tempo
os comboios passam em alta velocidade
com destino certo.

Aqui há as linhas paralelas
vazias
cheias de espectros endoidecidos
que aguardam por mim.
A eles não me dou
pois sempre lhes pertenci
e
se por vezes os temo
nunca é quando me dizem «vem,
com esse acento especial que te marca o nome!»

Não vou porque é aqui que vêm buscar-me
e eu não sou daqui.

Não confio na cegueira de quem insiste em ver-me onde não estou.


© Fata Morgana



Imagem de Stephany


 

 
Avalon, 16 Abril, 2007

 

 
Vieram inesperadas horas de silêncio, que passei aconchegada em mim a ouvir o pensamento murmurar as coisas caladas que eu sinto. Acalmaram-se as mãos, quietas no colo ou num afago ao gatinho adormecido, que de vez em quando suspirava, feliz.
Pensar. Sentir. Coisas que se confundem de tão parecidas que se tornam em horas assim, de alimento tomado pelos olhos e pelos ouvidos. Mas pelos olhos e pelos ouvidos de dentro, e pelos interstícios que são os poros desse lado - o dentro.
Não há qualquer rigidez nessa quietude absoluta e lassa, de uma lassidão inversa ao sono ou à preguiça, porque o corpo é como se não fosse ou não estivesse. Não há fome, não há cansaço, não há tempo, não há coisa alguma que permita ao vazio que se anuncie e instale. Apenas a plenitude de ser. Dentro.



Passaram horas. Na verdade, passaram noites inteiras, que vivi como instantes eternos.

Nas manhãs os sons da vida devolvem-me ao lado de fora, às solicitações, aos deveres. Levanto-me ao mesmo tempo que o gatinho salta para o chão, surpreendido por dar consigo assim desperto do seu sono alerta - sono de gato! - oposto à minha vigília, e volto a estar presente. Sei do sorriso um nadinha forçado com que volto a focar-me no visível, a inteirar-me:

- Estás bem?
- Sim, melhor. Tu é que deves estar toda moída. Dormiste aí sentada?

Espreguiço-me como se tivesse dormido muito, espreguiço-me como o gato, olho para ele e imito-o, a esticar meticulosamente o corpo todo, e guardo para mim que não, que não dormi, que andei pelos meus lugares amados e que alguns deles me assustam tanto e se calhar é desses que mais gosto.

© Fata Morgana


[Desconheço o autor da imagem]







 

 
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