Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
Todos os direitos reservados © Fata Morgana, SPA
Avalon, 18 Maio, 2007

 

 



Estava uma noite enevoada e fria, de lua cheia, velada. Assim que saiu do café, onde o ar abafado e os vidros ressoados a tinham feito sentir-se oprimida, decidiu dar um passeio em vez de ir para casa. O silêncio pesado do mar estava a atraí-la. Chamava-a. Ela respondeu ao apelo mudo, devagarinho, como se fosse ao encontro de um amante muito querido.
Lá estava ele, negro, quase parado sob a camada de nevoeiro, que era mais densa sobre a água. A sua voz soava como um suave marulhar junto aos penedos e suspirava baixinho na areia, onde ela se foi sentar, descalça. Ficou a olhar para a orla das ondas que lhe aflorava os pés. Era uma carícia terna, como se a água gelada a consolasse de todos os caminhos demorados e custosos, onde cada passo lhe tinha doído tanto.
Parecia não ter fim... tanta distância... tudo tão árido! Os outros caminhantes iam na direcção oposta e riam-se dela. Mas tinha a certeza de não estar enganada. Bem, na verdade, algumas vezes duvidara. Momentos em que se sentara, desolada; outros de estranhos desvios onde houvera sorrisos e doçuras... Chegara mesmo a dar meia volta. Mas nunca dera um único passo para lá da meia volta. Algo dentro de si, como uma bússola, lhe mostrava que o seu caminho estava certo e retomava-o sempre, mesmo sendo estranho e assustador, oh, e era mesmo assustador! Deu uma pequena risada deixando-se cair de costas na areia, o mar a molhar-lhe as roupas e os cabelos. Sentia-o como se, enamorado dela, a possuísse. Estendeu as mãos e mergulhou-as na água.
Naquele momento soube que não havia bússola. Eram os pássaros da noite, a lua e as constelações que a levavam como guardiães, ou como irmãos. Tinham-na levado até ele. Percebia isso ao recordar o primeiro olhar trocado e aquele abraço longo, repleto de murmúrios; e quando ele a puxara para si, não sentira qualquer medo. A solidão tinha desaparecido. Ela desejava que ele a absorvesse, inteira, já conhecia as suas profundezas, sabia que estava lá, desde sempre, e nele havia de se encontrar. Bem fundo.

...

Quando entrou na sala estava encharcada e a tremer. Ele ergueu os olhos do livro e, por um momento, ficou a mirá-la. Ela sorriu, aconchegando-se no abraço quente e perplexo que o deixou igualmente ensopado.
- Que aconteceu?
- Acabou por não acontecer nada. Tu és fundo e os teus silêncios são tão repletos... O mar é como tu, e eu confundi-vos. Foi o frio que me chamou à realidade. O mar é muito frio, senão...
Esta afirmação suspensa fê-la morder os lábios. Acabava de sentir, de forma explícita, que ele se parecia verdadeiramente com a imensidão de um mar calmo... às vezes muito frio.


© Fata Morgana

Desconheço os autores das pinturas!



 

 
Avalon, 14 Maio, 2007

 

 

Pretinha Prodígio





Perdi a minha melhor amiga e nem sou capaz de escrever nada de jeito para a guardar aqui, onde falo de tudo o que é importante para mim. Talvez amanhã eu consiga...

Morgana



 

 
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