Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
Todos os direitos reservados © Fata Morgana, SPA
Avalon, 08 Junho, 2007

 

 
Era preciso fazer a mala depressa, pois tinha gente à espera, mas não era fácil escolher as coisas certas. Quase sempre escondida no seu mundo solitário, nessa altura estava prestes a ser devorada por esse mesmo mundo, por essa mesma solidão. E só pensava nisso, não era capaz de se concentrar na mala, nas roupas, na pressa.
Havia a mão protectora que tantas vezes a guiava e foi dando a sua ajuda, fazendo-a separar peças, algumas das quais mais tarde havia de se perguntar porque levara consigo em vez de outras, e a mala ficou pronta. Claro que se esqueceu de algumas coisas, mas não fazia diferença pois até poderia ter deixado tudo. Sabia que daria no mesmo, tinha esse sentimento estranho.

Às vezes um velho amigo surge inesperadamente no nosso caminho, como uma estrela que, tendo estado sempre ali, brilha de súbito mais do que as outras e voltamos a olhá-la, surpreendidos. Traz alívio. Traz sobressaltos desejáveis. Faz-nos redimensionar-nos, deitar fora as pequenas falsidades que fomos assumindo para nós próprios, porque traz consigo a nossa imagem pura, verdadeira. E leva-nos, como se soubesse perfeitamente que precisamos que nos leve a algum lado... ou a lado nenhum, desde que nos leve. A I. aparecera assim. E levara-a.
Tudo isto, ela pensava sentada ao lado da amiga, que conduzia. Não se viam havia uns dois anos. Tantas conversas para ter, tanta confiança para lhe falar, como se viessem de um até amanhã pronunciado na véspera. Diferentíssimas, eram como irmãs e o seu afecto dispensava afinidades.
Estava calor e uma luz imensa, que cegava. Era boa, a cegueira momentânea, e a conversa simples, tão simples, quase um bálsamo para a sua alma cheia de cansaços. Havia muitas coisas, incontáveis, como o agora não posso falar mais, vou desligar; e a resposta que ficara por dar: mas quem pediu para falar mais? Eu não quero falar mais. E também o amor, tanto amor, que lhe metia medo. Fugia de se apegar, escapava-se sempre, tinha a certeza de que seria muito complicado, depois, recuperar-se a si mesma, se o amor não durasse sempre. E nunca vira um amor que durasse sempre, nem acreditava que houvesse um, e dava consigo mesma a desejar uma coisa em que não acreditava. Talvez porque era precisamente esse o paradoxo que reinava na sua vida - ela dava e recebia amor eterno. Sentia que isso era verdade, vivia-o há muito tempo e não precisava da eternidade para ir confirmando o eterno, que é algo que se reconhece como uma cor, está presente desde o princípio, sabe-se. O meu lugar é aqui, o meu lugar és tu, Morgana. Sim, ela sabia que sim. E duvidava. Duvidaria sempre.

- Vais dormir no quarto da minha sobrinha, é o pequeno palácio de uma pequena princesa.
- Oh, que bom...! Os sonos devem ser especialmente repousantes no lugar onde costuma dormir uma criança. Pensava assim, embora soubesse que também podia ser o inverso. Lembrava-se dos pesadelos que tinha quando era muito pequena.
- A R. nunca lá dormiu, ainda tem medo de ficar sozinha, mas usa-o de dia para brincar. Está cheio de livros infantis, bonecas de pano e a cama é uma casinha de madeira para onde terás de subir por uma escadita.

Morgana pensou no seu castelo sombrio e cheio de fantasmas, que adorava. E sorriu. O palácio da princesa far-lhe-ia bem, apenas por uns dias. Ali dormiria cem anos como a bela adormecida, impossível de acordar senão pelo beijo do verdadeiro amor. Talvez dormisse para sempre. Talvez muito pouco. Sorriu outra vez, enquanto pensava que, depois de cair no sono, isso seria indiferente.

© Fata Morgana





Imagem: Ilustração de Edmund Dulac para A Princesa e a Ervilha de H. C. Andersen
(Esta princesa não dormiu cem anos. Por causa de uma ervilha padeceu inevitáveis e muito genuínas insónias)
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