| Fata Morgana...
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...ou o Claro Obscuro |
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Avalon, 29 Agosto, 2007
Abro os olhos e não sei onde estou. Isso não me preocupa nem um pouco. Dou meia volta, enquanto bocejo, e decido que vou dormir mais um pedaço, mas fico voltada para o espelho dourado, cuja moldura eu mesma decorei com cascas de árvores, folhas vermelhas e pequenas frutas venenosas, e quase acordo definitivamente. Avalon, 23 Agosto, 2007
A estrada sinuosa lembrava uma serpente que nunca se cansasse, que nunca fosse parar. O carro parecia contente com isso. Ou então eram as minhas mãos que iam contentes, dando voltas ao volante, quase só com as pontas dos dedos leves, serpenteando ao sabor da estrada, pelo monte acima, como se soubessem de cor aquele caminho, como se cada curva fosse um sulco familiar nas minhas mãos de palmas quase indecifráveis. Uma vez um quirólogo experiente disse-me que as minhas mãos eram quase indecifráveis, que tentar lê-las lhe produzia a impressão de estar a bater com a cabeça numa parede. Isso faz-me sorrir... pois como haveriam as minhas mãos de ser diferentes de mim, acessórias? Claro que não, elas são coerentes com o todo. E ali estavam, deliciadas com o caminho tortuoso mas fluido, e fluíam, como toda eu fluía, monte acima. Os meus olhos mal poisavam na estrada, era como se eu pudesse fechá-los, como se tudo em mim soubesse de cor todas as curvas, todos os ganchos, todas as escarpas ameaçadoras. Olhava as árvores, os penhascos e ignorava a estrada, que não havia em mim. A lua crescente espreitava-me, aqui e ali, e quase era capaz de ouvir os pássaros da noite, sabia-os, mesmo que o carro velho roncasse mais alto, no esforço da subida. O carro era um empecilho, deixei-o a fumegar numa berma e segui a pé, precisamente no ponto onde a vegetação se tornava dona de todo o lugar, densa e possessiva, rastejando sobre muros, mesas de piquenique abandonadas, casas arruinadas, e mesmo os troncos das árvores revestiam-se ali de trepadeiras selvagens. Oh, aquilo era um lugar mesmo... meu! Embrenhei-me na floresta nocturna como se fizesse parte dela, e continuei o meu caminho, pois de repente eu sabia que tinha um destino. Desconhecia-o, mas sabia que ele estaria lá e tinha uma impressão vaga de estar atrasada, muitos séculos atrasada. Por isso apressava-me, ofegante, as pernas arranhadas pelas silvas, as mãos ásperas de me apoiar em troncos rijos, os cabelos emaranhados pelo vento - que sempre se mostrara particularmente artístico com eles. Era uma casa enorme, na verdade era um castelo de pedras soltas, empilhadas umas sobre as outras, com um desenho de paredes que logo compreendi. Ainda restavam algumas portas, uma especialmente bonita, de madeira grossa, e as janelas. Havia muitos compartimentos sem tecto ou com grandes buracos que deixavam entrar a lua. E as trepadeiras. Visitei-os todos, até que encontrei uma grande laje de pedra, incólume, onde me deitei sem hesitar. É aqui que durmo, eu sei que é aqui. E adormeci, dormi um sono longo e repousante, o sono dos valentes que voltam quando já ninguém os espera. Sei que o dia seguinte foi o mais extraordinário de todos os que vivi até então. Mas não me lembro de acordar. © Fata Morgana Avalon, 12 Agosto, 2007
É tão fácil falar... É tão difícil ficar calado... Eu sou calada, mas para mim é exactamente ao contrário, nunca consigo falar quando preciso - e digo preciso porque esta incapacidade verbal acontece-me quando tenho de me defender, que é quase sempre - e ainda por cima gosto muito de silêncio. Sobretudo de silêncios confortáveis, que não sejam ensurdecedores. Claro que sei o quanto é bom conversar, mas é raríssimo encontrar alguém que perceba o que isso realmente significa e não tenho paciência para combates quando quero captar uma pessoa e transmitir-me a ela. É tão bom, dois intervenientes que se propagam um pelo outro, a discordância a tornar-se intrigante e envolvente, algo que queremos entender; a concordância de repente a suspender-nos num estado de quase beatitude. E o riso. Por vezes acontece, o riso, e é como uma coisa mágica, um laço invisível que une como o fogo solda duas partes separadas, que por momentos se tornam uma só. E se há uma lágrima trocada e aceite sem constrangimento... pode ser um nó que nunca mais se desdá. Qqqrrrttttppppppp... dzing! :) Volto mais tarde, que agora nem escrever consigo. Mas continuo a ouvir alguns ecos, sobretudo aquela frase a meio de uma conversa importante: afinal és a única pessoa que tem juízo... ízo... ízo... zo... ooooo... Não posso deixar de sorrir ao relembrar o contexto e, sim, faz-me sentir compreendida - coisa rara! - e menos solitária, também. Até por causa de quem assim me falou. E apraz-me, igualmente, concordar que tenho mesmo muito juízo. © Fata Morgana |
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