Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
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Avalon, 29 Agosto, 2007

 

 

Abro os olhos e não sei onde estou. Isso não me preocupa nem um pouco. Dou meia volta, enquanto bocejo, e decido que vou dormir mais um pedaço, mas fico voltada para o espelho dourado, cuja moldura eu mesma decorei com cascas de árvores, folhas vermelhas e pequenas frutas venenosas, e quase acordo definitivamente.
Ali, vejo-me, gritando um alegre "Bom dia!" Aqui, sinto-me, deitada, respondendo preguiçosamente "Oh, ainda é tão cedo..." E ganho eu, sem saber ao certo qual sou a eu, ao mesmo tempo que desconfio vagamente de que estamos trocadas.
Fecho os olhos e venço o desejo de rever o espelho e de perceber de que lado estou. É muito cedo, nem sei que horas são, mas ainda não é tempo de ser una e inteira, apetece-me dormir. Durmo.



É escuro. Frio. Os anjos que me acompanham sabem tudo de mim e têm os olhos baixos; eu vou de cabeça erguida, olho para o alto. De repente estou só, porque é assim que tenho de estar, os meus guardiães não me abandonam mas a sua presença é longínqua e depende de mim percebê-la ou não. No lugar para onde vou, muitas palavras importantes serão ditas, haverá muitos oradores, uns verdadeiros, outros mentirosos, cada um na sua varanda enfeitada, um pouco como o meu espelho. Dirão palavras que só terão cabimento no mundo do lado de fora. Mas eu nunca sei muito bem de que lado estou, logo, não saberei o que fazer daquilo que ouvir. É angustiante.
alguém que costuma estar sempre comigo, cujos anjos eu conheço e me conhecem a mim. Viemos juntos e ainda agora roçávamos amorosamente as mãos, mas de repente perdi-o de vista e logo a multidão o engoliu. Além disso, também ele deverá estar só, como eu. Não gosto disso.
Não ouço os oradores, perco todo e qualquer interesse por eles. Percebo que falam, cada um na sua expressiva varanda, mas não lhes presto atenção alguma, estou inteiramente empenhada na busca do meu companheiro, preciso de o encontrar.

E num inesperado bocejo abro novamente os olhos, e ali está a do lado de lá do espelho, a olhar para mim, muito séria. Também estou muito séria. Qual é eu...? Quem, de nós, perdeu o companheiro...? Volto-me e não estou só, ali está ele, a dormir, completamente abandonado ao sono reparador e à proximidade do meu corpo que lhe é lar. Parece tão feliz! Ele diz que dormir ao meu lado tem um efeito psicológico muito positivo e real, que mesmo adormecido sabe que estou ali. Abraço-o com uma ternura imensa, e deixo-me ficar muito quieta. Esquecida do espelho. E da outra. E não me pergunto mais qual de nós é realmente eu. A questão é ficar do lado certo ou errado, tanto se me dá, o importante é saber, descobrir qual é o meu lado nesse espelho que tem uma moldura dourada, que uma de nós enfeitou com cascas de árvores, folhas vermelhas e pequenas frutas venenosas.


© Fata Morgana




 

 
Avalon, 23 Agosto, 2007

 

 
A estrada sinuosa lembrava uma serpente que nunca se cansasse, que nunca fosse parar. O carro parecia contente com isso. Ou então eram as minhas mãos que iam contentes, dando voltas ao volante, quase só com as pontas dos dedos leves, serpenteando ao sabor da estrada, pelo monte acima, como se soubessem de cor aquele caminho, como se cada curva fosse um sulco familiar nas minhas mãos de palmas quase indecifráveis. Uma vez um quirólogo experiente disse-me que as minhas mãos eram quase indecifráveis, que tentar lê-las lhe produzia a impressão de estar a bater com a cabeça numa parede. Isso faz-me sorrir... pois como haveriam as minhas mãos de ser diferentes de mim, acessórias? Claro que não, elas são coerentes com o todo. E ali estavam, deliciadas com o caminho tortuoso mas fluido, e fluíam, como toda eu fluía, monte acima.
Os meus olhos mal poisavam na estrada, era como se eu pudesse fechá-los, como se tudo em mim soubesse de cor todas as curvas, todos os ganchos, todas as escarpas ameaçadoras. Olhava as árvores, os penhascos e ignorava a estrada, que não havia em mim. A lua crescente espreitava-me, aqui e ali, e quase era capaz de ouvir os pássaros da noite, sabia-os, mesmo que o carro velho roncasse mais alto, no esforço da subida.
O carro era um empecilho, deixei-o a fumegar numa berma e segui a pé, precisamente no ponto onde a vegetação se tornava dona de todo o lugar, densa e possessiva, rastejando sobre muros, mesas de piquenique abandonadas, casas arruinadas, e mesmo os troncos das árvores revestiam-se ali de trepadeiras selvagens. Oh, aquilo era um lugar mesmo... meu!
Embrenhei-me na floresta nocturna como se fizesse parte dela, e continuei o meu caminho, pois de repente eu sabia que tinha um destino. Desconhecia-o, mas sabia que ele estaria lá e tinha uma impressão vaga de estar atrasada, muitos séculos atrasada. Por isso apressava-me, ofegante, as pernas arranhadas pelas silvas, as mãos ásperas de me apoiar em troncos rijos, os cabelos emaranhados pelo vento - que sempre se mostrara particularmente artístico com eles.


Era uma casa enorme, na verdade era um castelo de pedras soltas, empilhadas umas sobre as outras, com um desenho de paredes que logo compreendi. Ainda restavam algumas portas, uma especialmente bonita, de madeira grossa, e as janelas. Havia muitos compartimentos sem tecto ou com grandes buracos que deixavam entrar a lua. E as trepadeiras. Visitei-os todos, até que encontrei uma grande laje de pedra, incólume, onde me deitei sem hesitar. É aqui que durmo, eu sei que é aqui. E adormeci, dormi um sono longo e repousante, o sono dos valentes que voltam quando já ninguém os espera.

Sei que o dia seguinte foi o mais extraordinário de todos os que vivi até então. Mas não me lembro de acordar.

© Fata Morgana


 

 
Avalon, 12 Agosto, 2007

 

 
É tão fácil falar... É tão difícil ficar calado... Eu sou calada, mas para mim é exactamente ao contrário, nunca consigo falar quando preciso - e digo preciso porque esta incapacidade verbal acontece-me quando tenho de me defender, que é quase sempre - e ainda por cima gosto muito de silêncio. Sobretudo de silêncios confortáveis, que não sejam ensurdecedores.
Claro que sei o quanto é bom conversar, mas é raríssimo encontrar alguém que perceba o que isso realmente significa e não tenho paciência para combates quando quero captar uma pessoa e transmitir-me a ela.
É tão bom, dois intervenientes que se propagam um pelo outro, a discordância a tornar-se intrigante e envolvente, algo que queremos entender; a concordância de repente a suspender-nos num estado de quase beatitude. E o riso. Por vezes acontece, o riso, e é como uma coisa mágica, um laço invisível que une como o fogo solda duas partes separadas, que por momentos se tornam uma só. E se há uma lágrima trocada e aceite sem constrangimento... pode ser um nó que nunca mais se desdá.

Qqqrrrttttppppppp... dzing! :)

Volto mais tarde, que agora nem escrever consigo. Mas continuo a ouvir alguns ecos, sobretudo aquela frase a meio de uma conversa importante: afinal és a única pessoa que tem juízo... ízo... ízo... zo... ooooo...
Não posso deixar de sorrir ao relembrar o contexto e, sim, faz-me sentir compreendida - coisa rara! - e menos solitária, também. Até por causa de quem assim me falou. E apraz-me, igualmente, concordar que tenho mesmo muito juízo.

© Fata Morgana




 

 
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