Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
Todos os direitos reservados © Fata Morgana, SPA
Avalon, 11 Setembro, 2007

 

 
Os gestos, precisos, são feitos devagar, com um carinho pouco usual. Primeiro o sulco de um ombro ao outro, depois outro sulco, até à pélvis. A seguir, com jeito e perícia, como quem liberta um doente exausto de uma camisola muito apertada, passa-a sobre o rosto exangue e pousa-a, retalhada, sob a nuca. Então começam os cuidados determinantes.

O olhar é atento e inquiridor mas os modos tornam-se ainda mais doces. De lábios entreabertos, ela murmura pedaços de frases como se falasse consigo mesma, embora se dirija ao paciente que não padece, e diz-lhe «que história me contarás...» e também «cá estamos, os dois e...». As mãos não param, retirando, observando, pesando, mas sem jamais a distraírem do principal, que é ouvir com os ouvidos de dentro e sentir o que está por detrás do silêncio profundo, ausente de queixas. Só ela o quebra, no seu modo quase inaudível «sim, aqui...» perturba-se um pouco «mas não... não.» e continua até a história lhe ser contada. Só nessa altura ergue os olhos e sorri a quem lhe seguiu cada gesto e esteve sempre ali com ela, intacto.
Lê-lhe baixinho as notas que foi tomando, que servirão para elaborar o relatório pericial, e quando acaba de ler procura uma expressão de paz no olhar aberto que nunca a desfitou. Bem sabe que essa é a única confirmação inequívoca possível, e só dá por concluída a sua observação quando a obtém.

Então entrega-se à tarefa de refazer a integridade física do seu paciente que já não padece, e nisso são todos diferentes. Uns assistem comovidos, com saudades de si mesmos, outros têm pressa. Outros ainda pretendem que lhes largue o invólucro e se volte para o que são nesse momento, algo próximos, mas num plano a que ela não pertence. Como se lhe quisessem retribuir os cuidados com igual análise interior dos males nela marcados de forma indelével.
É nessa altura que ela canta, para os esconder, porque os tem, sim, desde criança. E porque o canto acalma, como o pão, fecha docemente os sulcos feitos, deixando o paciente pronto para viajar. Há sempre algo de indefinível que fica com ela, como uma marca gravada. Certamente por ela não ser capaz de se manter fora das histórias mudas e quietas que lhe são contadas.

© Fata Morgana

Imagem de Radish Tordia

 

 
O Meu Castelo
 
Arquivos
 
 
Listed on BlogShares