| Fata Morgana...
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...ou o Claro Obscuro |
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Avalon, 10 Novembro, 2007
Em vão procurava alhear-me. Queria vogar, no meu modo vagabundo de ficar distante de mim e de quem me rodeia, lunática, de olhos no longe. Mas a atenção indesejada prendia-se e prendia-me aos rostos de quem se cruzava comigo, fazendo-me tecer conjecturas, um pouco doidas, algumas. E de repente vi-os. Do outro lado da rua, eles evoluíam em câmara lenta, e reparei nos olhos que ele pousava nela e também que não a via realmente, via outra. Uma pessoa imaginária. Alguém que correspondia a uma imagem que vinha de dentro dele e ele lhe emprestava. Nenhuma cumplicidade real, ela estava fora e ele estava dentro. Cá fora apenas um não-ser, de modos vagamente apressados e desatentos. Esmorecidos. © Fata Morgana
Avalon, 01 Novembro, 2007
Nas copas das árvores os pássaros dentro de mim cantam. Ouço-os e reconheço as vozes que me falam em sonhos... e também dos sonhos. A folhagem enche-se das cores que o meu coração ama e as noites são cada vez mais longas, as mãos cada vez mais soltas abrem-se. Seguro as pedras, sinto-as, estou sempre a reconhecê-las, limpas, ou por vezes sujas de pensamentos, lavo-as com sal e luar. E vou fazendo o caminho do meio. Sem abrigo. Hoje encontro os meus passos de ir depressa e chego ao lugar onde tudo é selvagem e conhecido. Tudo quanto vejo é como se viesse de dentro, de um em mim onde não sei ir, quase nunca. Mas sei estes muros velhos quase desfeitos pelas raízes. As trepadeiras que os cobrem parecem sair das pontas dos meus dedos - mãos de ramos emaranhados e de aranhas. Os meus pés parecem cada vez mais dentro da terra. Descubro-me há muito enraizada neste sítio onde não tinha estado antes. O rochedo onde me sento é um pouso meu, e o descanso que me dá já o tinha em mim mas não sabia. © Fata Morgana
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