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Avalon, 18 Abril, 2008
Não consigo publicar aqui via FTP. Felizmente é um problema que tem solução. Mas tenho de esperar e eu sou impaciente! Por isso, irrequieta e enervada, pus-me a fazer coisas neste outro lugar, onde já há tempos me vinha escondendo... Jamais deixarei este Castelo desabitado ... e também gosto muito
do outro! Agora tenho dois. Avalon, 15 Março, 2008
![]() -Podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui? -Isso depende muito de para onde queres ir - respondeu o gato. -Preocupa-me pouco aonde ir - disse Alice. -Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas - replicou o gato. (Lewis Carroll -Alice no País das Maravilhas) Encontrei este diálogo, agora mesmo. Pego muitas vezes na Alice, é um livro que nunca considero lido, um dos que, com maior ou menor assiduidade, ando a ler. Desde a primeira vez que lhe peguei. Hoje dei comigo a sentir-me esta Alice. E, claro, o gato cheschire tem imensa razão. (- ... desde que eu chegue a algum lado, acrescentou Alice a título de explicação. - Oh, certamente que hás-de chegar, disse o gato, desde que caminhes o suficiente.) :) Fata Morgana Avalon, 10 Novembro, 2007
Em vão procurava alhear-me. Queria vogar, no meu modo vagabundo de ficar distante de mim e de quem me rodeia, lunática, de olhos no longe. Mas a atenção indesejada prendia-se e prendia-me aos rostos de quem se cruzava comigo, fazendo-me tecer conjecturas, um pouco doidas, algumas. E de repente vi-os. Do outro lado da rua, eles evoluíam em câmara lenta, e reparei nos olhos que ele pousava nela e também que não a via realmente, via outra. Uma pessoa imaginária. Alguém que correspondia a uma imagem que vinha de dentro dele e ele lhe emprestava. Nenhuma cumplicidade real, ela estava fora e ele estava dentro. Cá fora apenas um não-ser, de modos vagamente apressados e desatentos. Esmorecidos. © Fata Morgana
Avalon, 01 Novembro, 2007
Nas copas das árvores os pássaros dentro de mim cantam. Ouço-os e reconheço as vozes que me falam em sonhos... e também dos sonhos. A folhagem enche-se das cores que o meu coração ama e as noites são cada vez mais longas, as mãos cada vez mais soltas abrem-se. Seguro as pedras, sinto-as, estou sempre a reconhecê-las, limpas, ou por vezes sujas de pensamentos, lavo-as com sal e luar. E vou fazendo o caminho do meio. Sem abrigo. Hoje encontro os meus passos de ir depressa e chego ao lugar onde tudo é selvagem e conhecido. Tudo quanto vejo é como se viesse de dentro, de um em mim onde não sei ir, quase nunca. Mas sei estes muros velhos quase desfeitos pelas raízes. As trepadeiras que os cobrem parecem sair das pontas dos meus dedos - mãos de ramos emaranhados e de aranhas. Os meus pés parecem cada vez mais dentro da terra. Descubro-me há muito enraizada neste sítio onde não tinha estado antes. O rochedo onde me sento é um pouso meu, e o descanso que me dá já o tinha em mim mas não sabia. © Fata Morgana
Avalon, 11 Setembro, 2007
Os gestos, precisos, são feitos devagar, com um carinho pouco usual. Primeiro o sulco de um ombro ao outro, depois outro sulco, até à pélvis. A seguir, com jeito e perícia, como quem liberta um doente exausto de uma camisola muito apertada, passa-a sobre o rosto exangue e pousa-a, retalhada, sob a nuca. Então começam os cuidados determinantes. O olhar é atento e inquiridor mas os modos tornam-se ainda mais doces. De lábios entreabertos, ela murmura pedaços de frases como se falasse consigo mesma, embora se dirija ao paciente que não padece, e diz-lhe «que história me contarás...» e também «cá estamos, os dois e...». As mãos não param, retirando, observando, pesando, mas sem jamais a distraírem do principal, que é ouvir com os ouvidos de dentro e sentir o que está por detrás do silêncio profundo, ausente de queixas. Só ela o quebra, no seu modo quase inaudível «sim, aqui...» perturba-se um pouco «mas não... não.» e continua até a história lhe ser contada. Só nessa altura ergue os olhos e sorri a quem lhe seguiu cada gesto e esteve sempre ali com ela, intacto. Lê-lhe baixinho as notas que foi tomando, que servirão para elaborar o relatório pericial, e quando acaba de ler procura uma expressão de paz no olhar aberto que nunca a desfitou. Bem sabe que essa é a única confirmação inequívoca possível, e só dá por concluída a sua observação quando a obtém. Então entrega-se à tarefa de refazer a integridade física do seu paciente que já não padece, e nisso são todos diferentes. Uns assistem comovidos, com saudades de si mesmos, outros têm pressa. Outros ainda pretendem que lhes largue o invólucro e se volte para o que são nesse momento, algo próximos, mas num plano a que ela não pertence. Como se lhe quisessem retribuir os cuidados com igual análise interior dos males nela marcados de forma indelével. É nessa altura que ela canta, para os esconder, porque os tem, sim, desde criança. E porque o canto acalma, como o pão, fecha docemente os sulcos feitos, deixando o paciente pronto para viajar. Há sempre algo de indefinível que fica com ela, como uma marca gravada. Certamente por ela não ser capaz de se manter fora das histórias mudas e quietas que lhe são contadas. © Fata Morgana Imagem de Radish Tordia Avalon, 29 Agosto, 2007
Abro os olhos e não sei onde estou. Isso não me preocupa nem um pouco. Dou meia volta, enquanto bocejo, e decido que vou dormir mais um pedaço, mas fico voltada para o espelho dourado, cuja moldura eu mesma decorei com cascas de árvores, folhas vermelhas e pequenas frutas venenosas, e quase acordo definitivamente. Avalon, 23 Agosto, 2007
A estrada sinuosa lembrava uma serpente que nunca se cansasse, que nunca fosse parar. O carro parecia contente com isso. Ou então eram as minhas mãos que iam contentes, dando voltas ao volante, quase só com as pontas dos dedos leves, serpenteando ao sabor da estrada, pelo monte acima, como se soubessem de cor aquele caminho, como se cada curva fosse um sulco familiar nas minhas mãos de palmas quase indecifráveis. Uma vez um quirólogo experiente disse-me que as minhas mãos eram quase indecifráveis, que tentar lê-las lhe produzia a impressão de estar a bater com a cabeça numa parede. Isso faz-me sorrir... pois como haveriam as minhas mãos de ser diferentes de mim, acessórias? Claro que não, elas são coerentes com o todo. E ali estavam, deliciadas com o caminho tortuoso mas fluido, e fluíam, como toda eu fluía, monte acima. Os meus olhos mal poisavam na estrada, era como se eu pudesse fechá-los, como se tudo em mim soubesse de cor todas as curvas, todos os ganchos, todas as escarpas ameaçadoras. Olhava as árvores, os penhascos e ignorava a estrada, que não havia em mim. A lua crescente espreitava-me, aqui e ali, e quase era capaz de ouvir os pássaros da noite, sabia-os, mesmo que o carro velho roncasse mais alto, no esforço da subida. O carro era um empecilho, deixei-o a fumegar numa berma e segui a pé, precisamente no ponto onde a vegetação se tornava dona de todo o lugar, densa e possessiva, rastejando sobre muros, mesas de piquenique abandonadas, casas arruinadas, e mesmo os troncos das árvores revestiam-se ali de trepadeiras selvagens. Oh, aquilo era um lugar mesmo... meu! Embrenhei-me na floresta nocturna como se fizesse parte dela, e continuei o meu caminho, pois de repente eu sabia que tinha um destino. Desconhecia-o, mas sabia que ele estaria lá e tinha uma impressão vaga de estar atrasada, muitos séculos atrasada. Por isso apressava-me, ofegante, as pernas arranhadas pelas silvas, as mãos ásperas de me apoiar em troncos rijos, os cabelos emaranhados pelo vento - que sempre se mostrara particularmente artístico com eles. Era uma casa enorme, na verdade era um castelo de pedras soltas, empilhadas umas sobre as outras, com um desenho de paredes que logo compreendi. Ainda restavam algumas portas, uma especialmente bonita, de madeira grossa, e as janelas. Havia muitos compartimentos sem tecto ou com grandes buracos que deixavam entrar a lua. E as trepadeiras. Visitei-os todos, até que encontrei uma grande laje de pedra, incólume, onde me deitei sem hesitar. É aqui que durmo, eu sei que é aqui. E adormeci, dormi um sono longo e repousante, o sono dos valentes que voltam quando já ninguém os espera. Sei que o dia seguinte foi o mais extraordinário de todos os que vivi até então. Mas não me lembro de acordar. © Fata Morgana Avalon, 12 Agosto, 2007
É tão fácil falar... É tão difícil ficar calado... Eu sou calada, mas para mim é exactamente ao contrário, nunca consigo falar quando preciso - e digo preciso porque esta incapacidade verbal acontece-me quando tenho de me defender, que é quase sempre - e ainda por cima gosto muito de silêncio. Sobretudo de silêncios confortáveis, que não sejam ensurdecedores. Claro que sei o quanto é bom conversar, mas é raríssimo encontrar alguém que perceba o que isso realmente significa e não tenho paciência para combates quando quero captar uma pessoa e transmitir-me a ela. É tão bom, dois intervenientes que se propagam um pelo outro, a discordância a tornar-se intrigante e envolvente, algo que queremos entender; a concordância de repente a suspender-nos num estado de quase beatitude. E o riso. Por vezes acontece, o riso, e é como uma coisa mágica, um laço invisível que une como o fogo solda duas partes separadas, que por momentos se tornam uma só. E se há uma lágrima trocada e aceite sem constrangimento... pode ser um nó que nunca mais se desdá. Qqqrrrttttppppppp... dzing! :) Volto mais tarde, que agora nem escrever consigo. Mas continuo a ouvir alguns ecos, sobretudo aquela frase a meio de uma conversa importante: afinal és a única pessoa que tem juízo... ízo... ízo... zo... ooooo... Não posso deixar de sorrir ao relembrar o contexto e, sim, faz-me sentir compreendida - coisa rara! - e menos solitária, também. Até por causa de quem assim me falou. E apraz-me, igualmente, concordar que tenho mesmo muito juízo. © Fata Morgana |
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