Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
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Avalon, 28 Janeiro, 2004

 

 
There's no Place Like Nome!



Corria o Inverno invulgarmente gélido de 1925. As terras do Norte enfrentavam temperaturas que chegaram a descer aos cinquenta graus negativos.
Nome, cidade do Noroeste do Alaska, situada na costa do Mar de Bering, ficava - e fica! - longe de tudo, solitária, como os seus carismáticos habitantes. Inicialmente cerca de metade eram Eskimos, e a outra metade constava dos chamados não-nativos. Porém, com o tempo, misturaram-se placidamente, e agora não será fácil - nem terá muito interesse! - falar de percentagens. São hoje cerca de 3000 habitantes... e garantem orgulhosamente: ''There's no place like Nome!''
E é verdade. Senão vejamos o que aconteceu nesse Inverno de 1925, em que Nome, fustigada por um intenso nevão e ventos fortes, foi ainda assolada por uma severa epidemia de difteria. Houve muitas mortes e a doença parecia não ceder, antes pelo contrário, estavam sempre a aparecer novos casos. Os medicamentos rapidamente se acabaram e contrair a doença - contagiosa, ainda por cima! -, era quase morte certa, pois entre os pacientes e o ''soro curativo'' havia cerca de 1160 milhas de rigores praticamente intransponíveis, num Alaska que se mostrava especialmente duro nesse ano.
Os medicamentos adequados estavam em Anchorage, situada no sopé das Montanhas Chugach, uma grande cidade que mistura a sofisticação e os confortos da modernidade com a natureza agreste. O resultado... é puro charme!



Hoje rapidamente se mobilizaria um esquadrão de helicópteros para levar ajuda e trazer os doentes em pior estado, mas em 1925 não havia aviões capazes de voar com os ventos que se faziam sentir. As linhas-férreas estavam obstruídas. O máximo que se conseguiu foi fazer chegar um vagão carregado de medicamentos a Nenana, 250 milhas mais adiante na direcção de Nome. Mas... como transpor as restante quase 1000 milhas?!
Foi aí que a coragem entrou ao serviço da solidariedade! Um grupo de mushers (criadores/treinadores de cães para puxar pequenos trenós, com vários objectivos, desde o simples transporte à competição) empreendeu uma das maiores operações de salvamento de todos os tempos. O primeiro partiu de Nenana, e fez uma parte do percurso, passando o testemunho - os medicamentos! - a outro musher, que fez exactamente o mesmo. Cada um ia deixando para trás uma porção do caminho, e no final, aqueles homens nos seus trenós, puxados pelos seus bravíssimos cães, cumpriram a distância entre Nenana e Nome. Juntos, homens e cães enfrentaram estoicamente as temperaturas baixas, os ventos, e sabe-se lá que mais perigosos obstáculos - esta história é inspiração de numerosas lendas! Decorridos cinco dias e sete horas, a salvação chegava a Nome evitando uma calamidade... e isto é facto, não é lenda.

The Iditarod Trail



Em 1972, inspirados neste acontecimento, um grupo de mushers organizou uma corrida que reproduzia a trilha do salvamento Anchorage/Nome, conhecida por Iditarod. A corrida, com o seu fundo heróico de verdade, nunca mais deixou de se realizar, até hoje. Só que não há milhas feitas de comboio, nem se passam testemunhos. Cada equipa - formada por um musher e a sua matilha - tem que fazer as 1160 milhas de trenó. Mas podem parar o tempo que quiserem ou precisarem, pois há vários checkpoints, situados precisamente nos locais onde os mushers salvadores se revezaram em 1925.
Estes checkpoints são confortáveis mas simples acampamentos onde comida quente e descanso estão garantidos para todos, assim como a assistência de equipas de médicos e veterinários, que examinam os homens e os cães. Os veterinários são especializados em cães atletas, e assistidos por massagistas. Um cão lesionado, ferido, esgotado, é imediatamente mandado para casa, de avião - o Iditarod é seguido de perto por aviões e helicópteros que, para além de fazerem a cobertura do acontecimento, providenciam tudo o que for necessário.
Também é visto com o justo desprezo um musher que coma ou se deixe tratar antes de providenciar ambas as coisas para os seus cães. Aliás, a estreita ligação entre o dono e os seus companheiros de viagem, é conhecida de quem segue estas corridas.

Ao longo destes anos, os cães têm alinhado em Anchorage ansiosos pela partida, pois eles é que são realmente os atletas, e adoram correr.
Eu adoro os cães, gosto de os ver aos saltos, excitadíssimos, desejosos de que a aventura principie. Têm um ar forte mas os olhos meigos, lindos olhos de cão! Ficam amorosos nas botinhas que usam para não criarem bolas de gelo entre os dedos. O gelo é cortante como pequenas farpas e magoa nas patinhas, por isso eles usam botas!
Eu hei-de ir ver isto tudo ao vivo! Se depois não conseguir voltar para cá... oh, talvez me torne musher, como a DeeDee Jonrowe, que corre o Iditarod desde 1980, com um segundo lugar e uma única desistência. Não conto ganhar, apenas ter os meus cães - uma matilha! - e ir correr com eles. Cá não posso, moro num andar e só permitem canitos pequenos, que ladram fininho. Com todo o respeito pelos animaizinhos, eu gosto mais de cães que parecem lobos! Como os dos mushers.



A Iditarod Sled Dog Race de 2004, começa no dia 6 de Março! Pode-se seguir em directo - há sempre videos fantásticos! - aqui mesmo! E o Yukon Quest, outra das muitas competições de Sled Dog que se realizam no Alaska - esta vai até ao Norte do Canadá -, começa no próximo dia 14. Fica o aviso feito. Agora já estou descansada...

© Fata Morgana

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