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Avalon, 26 Maio, 2004
Hoje estive ocupada com questões algo complicadas. Bach é o meu compositor favorito. Glenn Gould é o meu pianista favorito. Tudo começou por aí... Dito assim, parece uma coisa simples, mas não é! De pensamento em pensamento, acabei por perceber que não ia ser capaz de arrumar as ideias sozinha, por isso tive que escrever ao Glenn Gould.
Não é uma desculpa para justificar a minha ausência! Até precisava de um selo, se alguém me emprestasse um, a carta seguia ainda hoje... ![]() Caro Glenn: Preciso de falar consigo, pois tenho andado com perguntas na cabeça, perguntas cuja resposta o meu amigo é a pessoa ideal para me dar. Dantes, costumava visitar-me frequentemente (ou seria eu a procurá-lo?), e deixava-me sempre esclarecida a respeito de todas aquelas suas extravagâncias que são tão bonitas e naturais em si e, embora eu nem sempre as compreendesse racionalmente, o meu coração entendia perfeitamente os seus motivos. Como não tem vindo... escrevo-lhe. Hoje preciso da sua opinião sobre algo que não lhe diz respeito directamente, mas em que participa e, além disso, a sua autoridade na matéria é incontestável. Começo por lhe dizer que sei que devia escrever a Herr Bach e não a si. Porém, não tenho com ele a menor intimidade, não me atrevo a importuná-lo. É um homem prático, cheio de afazeres, com uma família numerosa e tem com certeza o tempo muito bem gerido - pode estar ocupadíssimo a compor. Ao passo que o Glenn é um eremita, um homem contemplativo, complexo, mentalmente hiperactivo... mas quieto. É, tal como eu, um apaixonado pelas coisas-que-nos-escapam, pelo ruído de fundo, quiçá pelas interrupções! É-me muito mais fácil irromper pelos seus invisíveis labirintos mentais do que chegar ao pé de Herr Bach e calar-lhe o cravo, ou, pior! - apanhá-lo sentado frente ao órgão e interromper algum coral! Sempre são coisas que se ouvem e vêem. A questão que pretendo colocar-lhe vem no seguimento de um assunto em que sei que estamos de acordo, o Glenn, eu e o aqui visado. Como bem sabe, Ludwig (claro, o van Beethoven!) sempre se sentiu muitíssimo frustrado com o som do piano do seu tempo, que era um som pequeno para as obras monumentais que ele compôs para o instrumento. O Glenn tocou-as - como ninguém! - em pianos modernos, bem sabe que os musicólogos fanáticos não têm razão nenhuma em defender que tais obras devem ser tocadas em pianos ''da época'', assim como sabe que um verdadeiro purista entenderá que Ludwig escreveu as suas Sonatas e Concertos (sobretudo os três últimos) para um instrumento que sentia e idealizava mais poderoso. É até uma crueldade condená-lo eternamente ao piano do seu tempo, que tanto o agastava! - é negar-lhe a qualidade de visionário e a verdadeira dimensão à sua música. Até aqui... estamos os três de acordo, nem precisamos de incomodar Ludwig, que está certamente com a sua amada desconhecida (para nós, naturalmente). Mas, Glenn, o que acha de Herr Bach? - é esta a verdadeira questão que me atormenta! Ele jamais se queixou do cravo (o órgão não é para aqui chamado, só as obras para cravo me preocupam). Mas eu gosto muito mais das Variações Goldberg tocadas ao piano. Assim como do Teclado bem Temperado. Eu acho que Herr Bach nunca se aborreceria consigo por ter feito aquelas geniais interpretações - e gravações! - ao piano. Acho que a música perfeita do compositor, a mestria evidente nas suas fugas gigantescas, as harmonias ousadas mas de resoluções sempre correctas, provam sobejamente uma inteligência criativa muito grande. Mas, por outro lado, sabemos que, apesar dos filhos terem aderido alegremente ao então recém aparecido piano, ele não o fez! O que acha Glenn? Herr Bach estará zangado consigo por tocá-lo ao piano? Comigo, por achar que as Variações Goldberg, tocadas por si, são a música que eu escolhia se tivesse que ouvir apenas uma obra durante toda a vida? Escusa de responder por escrito, esta noite sonho consigo de certeza, pois estou preocupada com este caso - não se faça esquivo, não? Um abraço, meu amigo, e até logo! © Fata Morgana Etiquetas: Bach, Beethoven, Correspondência VIP, Eu. Pura e Dura. Nua e Crua, Glenn Gould Avalon, 12 Abril, 2004
Também eu ponho Bach a tocar baixinho. Para Rudi
"Tem um piano?, perguntou. Tinha algo de travesso nos cantos dos olhos e tive de conter um sorriso. Não, respondi. Nesse mesmo instante, uma outra nota de piano pairou do quarto andar e alguém começou a tocar Beethoven com extraordinária beleza. Rudi tremeluziu e disse que era capaz de travar conhecimento com o proprietário do piano e convencê-lo a deixar praticar. (...) Juntei-me a ele à mesa, de onde me lançou outro sorriso rápido, antes de voltar a afundar-se na comida. Então queres ser bailarino?, perguntei. Quero dançar melhor do que aquilo que sei, disse ele. ![]() (...) Perecia tão jovem, jovial e ingénuo. O seu sorriso descaído dava-lhe um ar de certa forma triste, que não era, de modo algum. Quanto mais o examinava mais reparava nos seus olhos extraordinários, enormes, indomados, como se fossem entidades independentes, revistando o apartamento, esquadrinhando a minha colecção de discos. Pediu um pouco de Bach, que pus a tocar baixinho e a música parecia percorrê-lo enquanto comia. (...) Começou a dançar e parecia que estava a verificar a envergadura das suas asas. ![]() Deixei-o ficar, movendo-me em seu redor para limpar a louça. Antes de eu ir para a cama, gritou no máximo da sua voz: Obrigado, Yulia Sergeevna!" in ?O Bailarino? de Colum McCann Estes excertos são pequenos quadros das primeiras horas que Rudolfo Nureyev passou em Leninegrado, onde se deslocou em 1956 para uma série de audições na Escola de Bailado do Teatro Kirov (onde foi aceite como aluno). Yulia era a única filha da sua professora de dança em Ufa e nunca antes vira o rapaz, mas entre os dois criou-se um estranho laço, nunca quebrado. Yulia foi a última pessoa que Rudi visitou quando, após 30 anos sem pisar solo Soviético, lhe foi concedido um visto de 48 horas para visitar a sua família. © Fata Morgana Etiquetas: Bach, Bailado, Colum McCann, Os Que o Meu Coração Escolheu, Rudolf Nureyev |
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