| Fata Morgana...
|
|
...ou o Claro Obscuro |
|
Todos
os direitos reservados © Fata Morgana, SPA |
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
Avalon, 12 Junho, 2004
Tu vives na rua das surpresas
onde eu acabo sempre por passar apreciando as súbitas belezas onde nada aparenta realçar Só os meus olhos pássaros em voo encontram os lugares onde pousar descobrem as ocultas subtilezas deixadas para mim para eu olhar Eu vivo na rua das surpresas onde acabei um dia por ficar apreciando as doces subtilezas trocadas entre nós a cada olhar © Fata Morgana ![]() Antoine Blanchard - Quai du Louvre Etiquetas: Poesia Avalon, 06 Junho, 2004
Cantos Passados
Tudo o que relembro revivo reavivo com a força do sol quente a irromper rasgando as sombras. Fica uma humidade mansa boa que transforma o mofo em musgo. Os ecos agonizantes dos corredores sombrios como braços frios transformam-se em canções e os braços já transpiram e desenham emoções como que as dançam. São apenas recordações mas não estão mortas refloriram em vez de empalidecerem sob muitas camadas de escuridão. © Fata Morgana ![]() Etiquetas: Poesia Avalon, 04 Junho, 2004
![]() O Rosto da Alma Nas pontas dos meus dedos sinto o gume Com pequenos toques pelas linhas cortantes desse rosto inquieto Em pequenos golpes sinto as marcas do passeio predilecto O mais longo instante é nos cantos dos lábios e flutua em gesto contrário ao trejeito descaído que detecto Se abrisse os olhos, se te visse, talvez pudesse dizer-te: és belo talvez soubesse, olhando, percebe-lo. Assim, não sei mas sinto e se porventura o disser não minto. © Fata Morgana Etiquetas: Poesia Avalon, 28 Maio, 2004
![]() Os risos e as rosas não se desvanecem nos vasos sanguíneos. Ecoam florescem os sons curvilíneos os doces odores nos meus olhos rasos da água que guardo para as minhas flores © Fata Morgana Etiquetas: Poesia Avalon, 21 Maio, 2004
![]() Chuva vem esbater os traços com que eu fui feita Varre os meus antigos passos de abertura estreita Lava-me do sal chorado a tua água é doce, o meu rosto é salgado Provo-te dentro de mim sorrio não tens gosto, não tenho frio Abrigo-me enfim agora cheia de águas de céu envolta na beleza do teu véu © Fata Morgana Etiquetas: Poesia Avalon, 18 Maio, 2004
![]() Não sei dizer o que ausência significa. Sei que pode ser morte que pode ser esperança viagem constante onde apenas se alcança o lugar vazio da pessoa ou a pessoa mas isenta do seu ser. © Fata Morgana Etiquetas: Poesia Avalon, 17 Maio, 2004
Meu Cavaleiro Andante
Que seja como tu sonhaste... Uma jornada longa em que descobriste o teu caminho meu e o floriste. Uma promessa de que estarei no fim Agora. Uns olhos tristes (como os meus quando fechados) nunca mentem Por isso o teu caminho é sem cuidados. © Fata Morgana ![]() Etiquetas: Poesia Avalon, 05 Maio, 2004
![]() Poema Frio Onde for o mar de gelo que tu habitas eu mostro-te: não estás só. Como tu, outros seres escolhem o frio e as noites que duram meses de solidão. Fica no teu pólo distante, não tenhas a ideia perturbante de te aventurares em mares de corais com litorais amenos onde ao degelo inesperado chamamos calamidade. © Fata Morgana ![]() Etiquetas: Poesia Avalon, 04 Maio, 2004
![]() Penélope Teço este manto com fios de certezas que não tenho. Tarda em ser pronta esta tarefa desmedida! Nela tudo aquilo quanto sinto, cicatriza e torna a abrir como uma ferida. Faço por ser apenas mãos e dedos por esquecer os medos vãos e meço nas linhas com que teço o nosso amor neste manto que é um bastidor onde eu te quero tanto como sempre quis... Porém, mais de mil vezes o desfiz. © Fata Morgana Penélope sempre me fascinou pela certeza e determinação com que esperou por Ulisses. Pressionada a escolher um consorte que sucedesse o seu marido - a seu lado e no trono -, inventou um ardil quase hipnótico. Comprometeu-se a escolher um dos pretendentes, assim que acabasse de tecer um manto (tapete, em algumas versões). E logo principiou o trabalho, serenamente. Adivinha-se - porque o fazia a ocultas, correndo risco de ser descoberta -, que não estaria tão serena quando todas as noites desfazia uma porção do manto/tapete... que ela transformou assim numa obra interminável. Pois quanto à luz do dia era tecido, à noite voltava a ser novelo. Ulisses partira contrariado. As recordações que Penélope tinha da vida com ele partilhada eram certamente felizes, muito boas. Mas passaram-se anos, sem notícias! Ela era uma jovem e tornou-se numa mulher madura, sempre só. A memória do rosto dele esvaiu-se com o tempo - ela mais tarde não reconheceria Ulisses! ? mas não o sentimento. Ele, por sua vez, voltou por ela e para ela. Tornaram a viver felizes, como eram antes. Foi uma dupla ?aposta radical no outro? ? como é costume dizer-se. Não quero esmiuçar o assunto, o que me agrada é precisamente lançar a questão. Eu tenho a minha ideia, que apenas exprimi, em parte, no poema que escrevi e também na escolha desta citação: ?Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura.? Friedrich Nietzsche Na realidade, foi por causa da citação que me lembrei - uma vez mais! - da Penélope e do Ulisses. © Fata Morgana Etiquetas: Citações, Friedrich Nietzshe, Penélope e Ulisses, Poesia Avalon, 03 Maio, 2004
![]() Ontem à noite adoeci. Não é grave, mas tenho que estar deitada, neste dia agreste e ventoso de Primavera. Está a saber-me bem, o que é muito raro. Geralmente, adoecer enche-me de tédio, e hoje não, hoje lembrei-me deste poema do Sá-Carneiro, que queria meter-se na cama, aconchegar-se como se num abrigo protector da vida, que o horrorizava. Achei que talvez fosse uma boa ideia lê-lo - que coisa romanesca! Esgueirei-me da cama em busca do livro e não pude deixar de me rir, pois não sinto isto, evidentemente. Sinto é uma admiração reverente pelo poeta - Sá-Carneiro era grande! É grande, que os poetas não morrem. Esgueirei-me um bocadinho mais... até aqui. Onde o deixo. Se cá não estou, ouvem-se sempre as vozes dos que eu amo. Caranguejola Ah, que me metam entre cobertores, E não me façam mais nada!... Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada, Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores! Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado... Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira... Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira. Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos. P'ra quê? Até se mos dessem não saberia brincar... Que querem fazer de mim com estes enleios e medos? Não fui feito p'ra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!... Noite sempre p'lo meu quarto. As cortinas corridas, E eu aninhado a dormir, bem quentinho - que amor!... Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor - P'lo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas... Se me doem os pés e não sei andar direito, P'ra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord? Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde. Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito... De que me vale sair, se me constipo logo? E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza? Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo - E não penses no resto. É já bastante, com franqueza... Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará P'ra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria? Tenham dó de mim. C'o a breca! levem-me p'rá enfermaria - Isto é: p'ra um quarto particular que o meu pai pagará. Justo. Um quarto de hospital - higiénico, todo branco, moderno e tranquilo; Em Paris, é preferível, por causa da legenda... De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda; E depois estar maluquinho em Paris, fica bem, tem certo estilo... Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras, Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou. Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras. Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou. Mário de Sá Carneiro Até amanhã... Volto para a cama a aninhar-me, bem quentinha. Fata Morgana Etiquetas: Caranguejola, Mário de Sá Carneiro, Poesia Avalon, 28 Abril, 2004
![]() Bob Ichter A Vós Todos os dias há um tesouro que se desperdiça porque não se olham. Todas as promessas que ficam nos sorrisos por cumprir, Tudo o que não sabem nem podem sentir porque têm medo e o medo gela, entorpece. O coração dele adormece O dela torna-se azedo. E assim, quando se juntam envenenam o amor que resiste em segredo. © Fata Morgana Etiquetas: Poesia Avalon, 20 Abril, 2004
Poema com Post-Scriptum
Ama-se por todas as razões mas nenhuma é tão forte como aquela que não é razão nenhuma. O coração dói, liberto e salta doido no peito, paramos de respirar. O pensamento não pensa, sente. O sentimento não sente, é. Fata Morgana PS. (Respiramos? mas mais depressa e superficialmente; se não fosse o todo ser contente em posse de algo maior cansar-nos-ia quase logo e voltaríamos a suspirar profundamente). © Fata Morgana ![]() Etiquetas: Poesia Avalon, 17 Abril, 2004
![]() O Leste de um Beijo Na palma da minha mão pousaste, com força, um beijo. Não me acordaste o desejo não perguntei o motivo. Se era um adeus, um carinho um mero gesto furtivo, porque o fizeste eu não sei. Atirei-o ao vento Leste e o beijo que tu me deste voou para longe sozinho. Depois, nos gestos da vida em que às vezes ajudei estendi a mão, dei guarida Na palma da mão beijada é que parecia guardada a força com que toquei. Não sei o que é, não sei. E pergunto ao beijo ausente, à mão vazia, sem nada. Escuto ao longe a voz do vento dizendo-me num lamento: - Ainda não sentes? Sente! © Fata Morgana Etiquetas: Poesia Avalon, 07 Abril, 2004
![]() Quando as sombras no Verão chegam ao meu coração e o refrescam gentis Eu recolhida descanso no raro momento manso sentindo as brisas subtis É como o sol do Inverno que oferece um momento terno de calor e aconchego São estes laivos contidos na estação do ano oposta o Tai-chi da Natureza. © Fata Morgana Etiquetas: Poesia Avalon, 31 Março, 2004
![]() Lamento d?Ariana Eu disse tudo gastei o desalento Chorei todo o passado meu e teu. Agora já não sei pergunta ao vento São dele as cinzas de tudo o que ardeu. Se te lembras do amor que foi o nosso Pouco durou bem sei dura é a vida Conforma-te, por ti já nada posso Não tenho temperamento de esquecida © Fata Morgana Etiquetas: Poesia Avalon, 25 Março, 2004
![]() Eu tenho horas boas do tempo escondidas pelo tempo esquecidas pertencem-me a mim Num gesto risonho eu guardo e esconjuro o desejo puro a quedar-se assim. Não que o tempo tenha fim ou o desejo, jamais. Mas eu gosto quando os vejo em luta com frenesim pois são eternos rivais. © Fata Morgana Etiquetas: Poesia Avalon, 23 Março, 2004
![]() Adeus Toco no teu rosto ao de leve com as pontas dos meus dedos cumes de neve que mal sinto A frieza dessensibiliza E no cais o barco precisa do seu passageiro: eu © Fata Morgana Etiquetas: Poesia Avalon, 04 Março, 2004
![]() Como uma espécie de sibila airosa sábia de cerimónias não me mexo Na língua uma palavra vagarosa ecoa como um doce sacramento Reside no olhar o movimento de profundeza aquática e lonjura Mergulhas nele como quem se cura de todos os cansaços, do tormento Num gesto calmo sempre sorridente invento um salmo e canto para ti Como uma espécie de sibila airosa sem cerimónias digo docemente - Agora vai. Não fiques por aqui © Fata Morgana ![]() Etiquetas: Poesia Avalon, 02 Março, 2004
A concórdia muda
ilude saudades Longe de ti tal como temias descubro as verdades e desfaço o laço Como é que sabias? © Fata Morgana Etiquetas: Poesia
A sorte é apenas uma abstracção
mas é nela que me inspiro e nunca na razão quando em todos os meus gestos te prometo às cegas: amanhã. Nem sei se viste © Fata Morgana Etiquetas: Poesia Avalon, 27 Fevereiro, 2004
Hoje
Hoje vou ignorar tudo o que me aborrece No sonho acordada que assim me acontece olharei a lua e sentirei que jamais alguém lá esteve Espantar-me-ei a desvendar mistérios conhecidos bem devagar porque os mistérios me são queridos © Fata Morgana Etiquetas: Poesia Avalon, 25 Fevereiro, 2004
Senda
Sempre sozinha entre toda a gente venho de longe e longe hei-de ir quieta Tenho a visão de paisagens repleta Pareço assim viver placidamente No peito escondo um lume que faz sede É essa a força que me instiga e mede © Fata Morgana Etiquetas: Poesia Avalon, 20 Fevereiro, 2004
É a paixão
em toda a sua força Todos os medos parecem devaneios poéticos e perecem estrangulados pelos meus dedos Uma inquietação constante persiste no meu coração radiante consumido sem lhe querer fugir É a paixão Em todo o seu ardor Prelúdio e interlúdio do amor © Fata Morgana ![]() Etiquetas: Poesia Avalon, 18 Fevereiro, 2004
É neste lugar
junto a esta fonte que as formas do meu corpo dão raízes E embrenham-se, espreguiçam-se felizes nas profundezas térreas deste monte E obstinada em me firmar aqui Esquecida por momentos da lonjura Com que espanto olhei o alto e vi A árvore frágil mas grande em altura Num gesto ágil eu chegando a ti © Fata Morgana ![]() Acer Rubrum - Árvore de cuja madeira têm sido feitos os mais belos violinos Etiquetas: Poesia Avalon, 17 Fevereiro, 2004
Misteriosa estrada
serpenteante palidamente iluminada perturbante Rasguei-a eu sob os meus passos leves de alegre e resoluta viajante. Na avidez do longe a cada instante deixei os medos breves que sentia. Misteriosa estrada onde eu vivia. © Fata Morgana ![]() Le Vals Sans Retour Etiquetas: Poesia Avalon, 11 Fevereiro, 2004
Considerações de Limiar
Nunca aprendi nada, só fiquei a suspeitar de algumas coisas. Não quero certezas, nenhumas certezas; apenas a liberdade para acreditar. Não idealizo, sonho. Não nego, ironizo. Falta-me uma coisa qualquer. Deve ser a coisa que explica o que eu não quero saber. © Fata Morgana Etiquetas: Poesia
![]() Eu faço calendários com pedrinhas Seixos a representarem Setembros Equinócios vários Assinalo dias extraordinários E quase todos são invenções minhas. Eu faço dicionários com folhas e flores Pétalas representam mentiras com sentidos vários Espinhos de rosa nos motivos extraordinários E em quase todos uso lindas cores. Eu leio histórias que escrevo com estrelas Vejo-as no céu e invento-as sempre belas como as memórias do que nunca aconteceu. © Fata Morgana ![]() Etiquetas: Poesia Avalon, 06 Fevereiro, 2004
O meu olhar no teu
enche-se de constelações És o meu hóspede inesperadamente o meu Não te possuo ainda e quem sabe nunca Apenas te olho e sem saber sorrio E o riso, sem porquê, veio do frio lugar que não se vê Tudo isto me lembra jejuns, macerações Mas nada tem de sacro a não ser, talvez, o almiscarado simulacro de todas as humanas seduções © Fata Morgana Etiquetas: Poesia Avalon, 04 Fevereiro, 2004
O Riso e as Lágrimas
Vagaroso manto feito de sopro de encanto pende dos meus ombros. Trago-o pelas lajes do tempo lentamente atrás de mim o arrasto mudamente e nunca sem deixar rasto. Os mutismos acontecem sem razão. Escondido no meu peito um coração bate mas não é meu dá-te a substância do breu. E eu, a voz de única e enorme lágrima diluída em canto, rasgo a escuridão que é nada e escorre do meu olho a sonora gargalhada. © Fata Morgana Etiquetas: Poesia Avalon, 02 Fevereiro, 2004
Poema Sinfónico
Gosto de sentir a musicalidade de um poema, relacioná-la com as palavras. Quando, por exemplo, a mensagem é dura e as palavras formam frases difíceis, que soam abruptas, o conteúdo é reforçado pelos recursos estilísticos; mas se a mesma dureza surge expressa em palavras fluidas e frases serpenteantes, que escorrem com facilidade pela nossa língua, a oposição conteúdo-forma pode ser igualmente interessantíssima. Hoje fiz uma escolha especial. Se, após uma leitura, a dissermos em voz alta, o resultado é... Poema concretista Filomena Adriana Isabel Assunção Patrícia Andreia Rita Aurora Joana Antónia Augusta Rosa Encarnação Sara Sandra Celeste Miriam Ana Judite Márcia Emília Dores Maria Elvira Elisabete Júlia João Josefa Arminda Lúcia Aida Sofia Cristina Estrela Diana Conceição Mariana Marta Acácia Lurdes Laura Margarida Inês Silvina Sílvia Neuza Paloma Elisa Elsa Alda Isaura Beatriz Ângela Helena Luz Tereza Manuela Ilda Rosário Rute Maura... Qual de todas deixou a luz acesa? Bernardo Pinto de Almeida in ?Hotel Spleen? Quero aqui guardar, no meu canto predilecto, este poema curioso. O autor, Bernardo Pinto de Almeida, crítico e historiador da arte, escritor e poeta, exprime de um modo assaz invulgar aquilo que os seus olhos vêem e também o que pensa e sente. Gosto de como ele tornou uma sucessão de nomes de mulheres, em algo tão sugestivo! Alguns versos são doces, soam doces, arredondados, como formas femininas. Outros são mais bicudos, com vértices, a sugerir elementos de tensão. O todo diz tanto, que me surpreendo, pois são apenas nomes! Fico, assim, com a impressão de que nem todos precisarão de escrever uma Ode intitulada ?As Mulheres da Minha Vida?. Poderia ser suficiente enumerá-las, conjugando os sons dos nomes das que fizeram a diferança, com o travo que tenham deixado na vida do poeta. Este, só aparece no final com uma pergunta factual. E essa pergunta faz-me divagar, por muito "concretista" que seja para quem assim a faz. Gosto muito deste poema, que retirei do MEU exemplar do livro "Hotel Spleen", esperando que o autor não me leve a mal roubar-lho emprestado. © Fata Morgana Etiquetas: Bernardo Pinto de Almeida, Crítica, Hotel Spleen, Poesia Avalon, 23 Janeiro, 2004
A Quem Não Amei
(Recordação) Passos mais leves que leves suspeitas ecoam nos meus braços corredores esguios Ouço-os temente causam-me arrepios no corpo liso de paredes estreitas Estranho convento sou quando me deitas e os meus olhos endurecem frios eternas criptas esquifes vazios sem vestígio de mágoas liquefeitas © Fata Morgana Etiquetas: Poesia
A Noite e o Dia
Embrenho-me noite dentro pelas sombras tenebrosas Bramindo com fúria o vento dá-me asas tão poderosas uiva no meu pensamento sopra-me versos e prosas Ao primeiro alvor do dia deito-me entre as açucenas e os sonhos chegam enfim O sol que me acaricia afasta todas as penas que encontra presas em mim © Fata Morgana Etiquetas: Poesia Avalon, 20 Janeiro, 2004
Flanco hidratado
biombo floral Entre nós os dois o separador foi fenomenal © Fata Morgana Etiquetas: Poesia Avalon, 19 Janeiro, 2004
Dedico este poema e a respectiva tradução à Rute. Eu resolvi - a minhas expensas, verdade seja dita - traduzir uma letra dos Beatles. A primeira resposta que recebi foi a da Rute... e fiquei com vontade de não ter postado o meu problemazito (ter uma canção ''metida'' na cabeça!).
Tens razão, Rute. Para traduzir, mesmo que não seja um verdadeiro poema, há que ser... talvez o Pessoa. Com toda a justiça e respeito, para ti, aqui fica... ANNABEL LEE (by Edgar Allan Poe) It was many and many a year ago, In a kingdom by the sea, That a maiden there lived whom you may know By the name of Annabel Lee; And this maiden she lived with no other thought Than to love and be loved by me. I was a child and she was a child, In this kingdom by the sea; But we loved with a love that was more than love- I and my Annabel Lee; With a love that the winged seraphs of heaven Coveted her and me. And this was the reason that, long ago, In this kingdom by the sea, A wind blew out of a cloud, chilling My beautiful Annabel Lee; So that her highborn kinsman came And bore her away from me, To shut her up in a sepulchre In this kingdom by the sea. The angels, not half so happy in heaven, Went envying her and me- Yes!- that was the reason (as all men know, In this kingdom by the sea) That the wind came out of the cloud by night, Chilling and killing my Annabel Lee. But our love it was stronger by far than the love Of those who were older than we- Of many far wiser than we- And neither the angels in heaven above, Nor the demons down under the sea, Can ever dissever my soul from the soul Of the beautiful Annabel Lee. For the moon never beams without bringing me dreams Of the beautiful Annabel Lee; And the stars never rise but I feel the bright eyes Of the beautiful Annabel Lee; And so,all the night-tide, I lie down by the side Of my darling, my darling, my life and my bride, In the sepulchre there by the sea, In her tomb by the sounding sea. ANNABEL LEE (de Edgar Allan Poe) Foi há muitos e muitos anos já, Num reino de ao pé do mar. Como sabeis todos, vivia lá Aquela que eu soube amar; E vivia sem outro pensamento Que amar-me e eu a adorar. Eu era criança e ela era criança, Neste reino ao pé do mar; Mas o nosso amor era mais que amor -- O meu e o dela a amar; Um amor que os anjos do céu vieram a ambos nós invejar. E foi esta a razão por que, há muitos anos, Neste reino ao pé do mar, Um vento saiu duma nuvem, gelando A linda que eu soube amar; E o seu parente fidalgo veio De longe a me a tirar, Para a fechar num sepulcro Neste reino ao pé do mar. E os anjos, menos felizes no céu, Ainda a nos invejar... Sim, foi essa a razão (como sabem todos, Neste reino ao pé do mar) Que o vento saiu da nuvem de noite Gelando e matando a que eu soube amar. Mas o nosso amor era mais que o amor De muitos mais velhos a amar, De muitos de mais meditar, E nem os anjos do céu lá em cima, Nem demônios debaixo do mar Poderão separar a minha alma da alma Da linda que eu soube amar. Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos Da linda que eu soube amar; E as estrelas nos ares só me lembram olhares Da linda que eu soube amar; E assim 'stou deitado toda a noite ao lado Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado, No sepulcro ao pé do mar, Ao pé do murmúrio do mar. Tradução: Fernando Pessoa Etiquetas: Annabel Lee, Dedicatória, Edgar Poe, Fernando Pessoa, Poesia Avalon, 09 Janeiro, 2004
''Morte, a única das minhas aventuras que não comentarei...''
François Mauriac Adoro o Mauriac, que me tem proporcionado muitas horas de excelente leitura. Escolhi esta citação entre muitas, por ser dele e tão verdadeira, e porque quero aqui deixar um poema que escrevi para alguém que decidiu escolher a hora de viver essa tal aventura que fica sem os comentários do protagonista. O poema cumpriu a sua dedicatória... mas muito mais para os que cá ficaram e lhe eram chegados - que eu saiba, evidentemente!... Por isso, hoje estendo-a a todos aqueles que são parentes e amigos dos que tomam a decisão de se ir embora. Ao T. R. Alma decantada embebida em terços A repousar no claustro brando dos silêncios Desata os pulsos dessas ligaduras frouxas E oferece o ar às tuas feridas roxas Deixa-as voar e vê como são belas Olha-as sereno já esquecido delas Fata Morgana Não querendo fazer julgamento algum, quero é deixar também um grito de vida. Isto, para ser fiel a mim mesma. E, para isso, escolhi Voltaire, numa metáfora que me parece perfeita pois dá-nos um imenso sentido de ocupação terna e útil e feliz. ''A vida é uma criança que é preciso embalar até que adormeça'' Voltaire (ou será - até que adormeças?... - emendar Voltaire é UMA OUSADIA!, e a frase fica subvertida, mas a vida não continua?!) Fata Morgana Etiquetas: Citação, Considerações, Dedicatória, Poesia
A Face Oculta
Não sei porque razão me deixo ficar a fitar a noite a filar a lua com as duas faces todas as fases sem excepção. À luz lacrimogénea dessa bola nua que flutua abro a janela romba arrombo-a. A lua é como eu fora-da-lei © Fata Morgana Etiquetas: Poesia Avalon, 03 Janeiro, 2004
Usando a máscara do riso
fui espreitar as rosas Olhei-as longamente e assim viçosas lembram as fragrâncias do amor os tons do fogo o gelo ardente Fui acendendo as sombras adormecendo o que doía com gestos que eram lassos outros laços neste dia O frio interno há pouco em mim mordente oculto no meu seio agora é quente Já junto às rosas cantam cotovias Morta nos bastidores esqueci no espelho a personagem que não trago mais à cena Fata Morgana Etiquetas: Poesia Avalon, 02 Janeiro, 2004
Navegar d?Ideias
Por tudo quanto se reza as miragens explodem. Todas as formigas me lembram ossos; E todos os ossos me lembram catedrais. Fata Morgana Etiquetas: Poesia
Vou deixar o coração
à porta. Cada vez que digo a verdade tu escutas uma língua morta. Fata Morgana Etiquetas: Poesia
Ao Espelho
Quem és tu que comigo te pareces... de olhos tão aguados lábios sorrindo a ocultar as preces; o corpo nu vencendo os trajos bem cuidados? Mãos que esvoaçam quando sei que são pesadas, que em lugar de arabescos traçariam fundos sulcos Peito tranquilo, de respirações pausadas, onde não explodem os vulcões ocultos. Fata Morgana Etiquetas: Poesia Avalon, 29 Dezembro, 2003
Inclino-me numa postura
flectida Os cabelos, ainda agora presos, soltam-se de um modo natural cobrem-me a curva da coluna vertebral Depois escorregadios tombam varrem a areia de onde extraio um seixo. Vejo-o estendo o braço e deixo os dedos segurarem também nos cabelos soltos e puxa-los como dói! assim revoltos. Ao voltar à posição direita sigo caminho, aquele mais bonito, mal o pisando a vereda estreita. Fata Morgana Etiquetas: Poesia Avalon, 17 Dezembro, 2003
Como Velas
Dei com colmeias de doçuras novas toquei-lhes com o cansaço imerecido dos meus dedos Apaguei todas as ideias fixas como se fossem velas quase gastas Dei com o riso inocente e ri também com gestuais prazeres como se fossem velas a hastear Vejo-me leve a mente antes exausta agora pronta a acreditar Fata Morgana Etiquetas: Poesia Avalon, 15 Dezembro, 2003
Um Sonho
Areia nos cabelos vegetação no olhar sedento Ilegíveis páginas de sono todas soltas O fogo é uma luz da imaginação Lanço-me em frontal queda de bruços E o lago recebe-me fresco Fata Morgana Etiquetas: Poesia
RealMente
Se uso a lente da atenção torno-me lógica esqueço a emoção. É como num jogo de mesa chega a parecer irreal assim estirada a verdade num tabuleiro. Fata Morgana Etiquetas: Poesia
Senda
Sigo o rasto complicado dos meus próprios passos Dou-me voltas de avanço mentais sem parar. Tenho de continuar Errando entre o longe e o perto Não quero é ficar num deserto sabendo que existe o mar Tenho de continuar Fata Morgana Etiquetas: Poesia Avalon, 10 Dezembro, 2003
Les Mots Dits
Dou-te no olhar tudo o que sinto E tu não sabes ler o meu olhar Tu crês é no que digo e eu só minto Não ponho a minha alma no falar Fata Morgana Etiquetas: Poesia Avalon, 02 Dezembro, 2003
Os Dias Brancos
Não gosto de dias brandos Quando chegam ao fim não durmo No irremediável estado de sem sono invento acordada uma insónia imaginada Reviro-me remexo-me revolvo os lençóis como se fossem nuvens Sentindo-me repleta de visões Findo este estado de saturação acordo. Concordo Não dormi. Fata Morgana Etiquetas: Poesia
As Flores Mortas
Assim sou eu, se te não quero Flor que ao colheres se mata antes que tu lhe toques Fizeste-a tua sem jamais a teres. Fata Morgana Etiquetas: Poesia Avalon, 20 Novembro, 2003
Prelúdio sem Fuga
Sei que uma qualquer causa muda encanta os silêncios. Talvez o gesto de cantar atraia os espectros Porque o canto acalma, como o pão. Vou soprando adágios lentos Com gestos de rosácea e risos, não lamentos. Não mudo de lugar. Sou uma árvore serena na ventania agreste. Fata Morgana Etiquetas: Poesia Avalon, 19 Novembro, 2003
Clarissa
Cavo mosteiro profundo onde me exprimo em híbrida cantilena lábil. Qual noiva enviuvando desfio preces cruzando o sacro com o profano. Professei na maturada busca de clausura e de silêncios. Densas paredes envolvem-me os suspiros perco-me em sonhos, labirintos. Com lisa indiferença as mãos lívidas desenham arabescos ora me persignando ora traçando loucuras com riscos finíssimos de dedos afilados ora espetando o indicador na febre doida de apontar aquilo que persigo mas como quem foge. Ínfima me hás-de encontrar nas breves inscrições hieroglíficas de mausoléu antigo. Já sem esta prece nos dentes ainda sem uma solução. Fata Morgana Etiquetas: Poesia Avalon, 16 Novembro, 2003
Um poema de que nunca me farto de um poeta de quem nunca me esqueço... Hoje passei um bom bocado no "Instituto Camões" a lê-lo.
Autopsicobiografia O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E os que lêem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm. E assim nas calhas de roda Gira,a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama coração Fernando Pessoa Etiquetas: Fernando Pessoa, Poesia Avalon, 04 Novembro, 2003
Estive a hesitar. Tenho adiado a própria vontade de trazer aqui o meu auto-retrato poético. Claro que poético! Mas mesmo assim, acabo sempre por escolher outro poema, escrever um novo... ou ainda por me atirar a toda a brida pelo surrealismo dentro, e passo verdadeiros momentos numa outra dimensão a ler a maravilhosa literatura deles, mais a dos percursores e a dos proscritos pelo grupo, para escolher alguns desses textos e poemas que me fascinaram sempre e traze-los para aqui.
Pois hoje fica cá o auto-retrato. Meu. Poético, claro. E fica já, antes que volte a hesitar, pois gosto dele, quero-o aqui. E sempre me senti, é verdade, um novelo. Mulher-novelo enrolada joelho suave de vertente húmida. Compasso atrasado. O cheiro repentino no tapete de cabelos desenrolado estendido Quietude de sono. Imagens informes, sonoras Movimentos de descontraída preguiça criativa. Criatura de ovos doces redonda Com um único vértice no olho. O outro olho tem a mobilidade vagarosa de um biombo. O sorriso é um mastro e o motivo a meia haste. Desalinhados padrões de sugestão dispersa. Fata Morgana Etiquetas: Considerações, Poesia Avalon, 31 Outubro, 2003
Elektra
Costumo enlanguescer-me no éter derramado p'los silêncios Rebolar sobre várias sensações vagas suprimidas ao vento Sudoeste. Ponto cardeal Complicado de significações Anoitece. Solto um suspiro cavo de vulcões E adormecida deixo-me ficar enroscada no morno sovaco paternal Posição habitual dos embriões. O escuro é povoado de amigos que se debruçam sobre mim Mas nunca lá estou. Longe. Fata Morgana Etiquetas: Poesia
Nocturno Op.1
A viuvez dos Anjos atropela ideias Acende estrelas cadentes Desbrava os corredores no escuro E os Relógios de Sol avariaram assim que vieram as trevas Fata Morgana Etiquetas: Poesia
Nocturno, Op.2
A cada passo mil sussurros soam A cada passo os sinto e sem saber Os sussurros levam-me longe a ver Olhos. Dois carvões a coruscar no escuro Fata Morgana Etiquetas: Poesia
Remember me...
(Dedicado a Klaus Nomi) Ontem pensei em ti, pintei o rosto. E como tu acentuei com ironia os traços. Pus fantasia na tristeza e no desgosto, fluindo em tinta mil desejos esparsos... Fata Morgana Etiquetas: Dedicatória, Klaus Nomi, Poesia Avalon, 28 Outubro, 2003
Liqües
A humidade é uma constante. Tudo é aquoso, tudo água, corrente solta, fluidez. A superfície tocada é sempre outra e afeiçoamo-nos a ela Como a uma só, a mesma. Temos a histeria da identidade. Mas somos, principalmente, Água corrente. Liquidez tamanha, que nos perturba de tão inconsistente. A mágoa é água; choro absurdamente. Fata Morgana Etiquetas: Poesia
Poetisa Infância
Poetisa infância Impulsos expulsos Ignorância dos caixilhos douta das liberdades absolutas Espontâneas emoções devolutas Riso, choro e gritos Ilações de inata ciência Passageira Memória de enigmas Surpreendente absurdismo que fascina e espanta quem já cresceu. Via gradual para outra gradação mais nave obrigatoriamente adulta Adulterada Prisão Perpétua Regresso e morte. Fata Morgana Etiquetas: Poesia Avalon, 27 Outubro, 2003
Alma-Gémea é um Mot-Mot...
(Dedicado a Antonin Artaud) Eu queria tanto ser louca tão louca, que não me apercebesse quanto o sou. Queria não saber para onde vou; Ser pedra em vez de pluma Neste abismo. E todas estas coisas em que cismo Durante a insónia, instante em que adormeço, são a minha maior honra do que sou e não mereço. Uma alma gémea de Antonin Artaud. Fata Morgana Etiquetas: Artaud, Dedicatória, Poesia Avalon, 24 Outubro, 2003
Missa
Toada de lamentos... Estranhíssima reza que enfeitiça. Se me mexo saio da letargia e eu não quero. Gosto deste choro falado à minha volta que me faz sofrer assim por nada E me leva para um longe que é aqui. Fata Morgana Etiquetas: Poesia Avalon, 20 Outubro, 2003
Navio do Ser
(dedicado a Antonin Artaud) A todas as madrugadas eu pedi a bruma. Do mar, apenas quis a espuma, porque o fundo negro era também já meu. Depois ante os teus olhos feitos de água cosi uma na outra e fiz um véu. Assim já ninguém vê a minha mágoa que a tenho bem escondida, assim tapada, atrás deste adereço que era teu. Fata Morgana Etiquetas: Artaud, Dedicatória, Poesia |
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||