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Avalon, 30 Março, 2004
![]() Detail of: Woman Writing a Letter, by Vermeer Caro Senhor Stendhal: Começo por lhe apresentar os meus sinceros respeitos. Não resisto a acrescentar que me agrada muito escrever-lhe e inverter a nossa relação: agora quem me lê é V. Excelência! Eu sou a sua leitora Morgana (sim, chamam-me a Fada!). Conhece-me, evidentemente ? não sei porque não me mencionou no seu tratado acerca do amor? nem me deixou entrar n? O Vermelho e o Negro - Julien Sorel ter-lhe-ia ficado gratíssimo! Mas adiante, não quero desviar-me dos meus intentos. Escrevo-lhe porque me encontro numa situação um bocadinho embaraçosa, que passo a descrever-lhe: Eu tenho um Blog que se chama Fata Morgana ou o Claro Obscuro. Tal coisa não existia no seu tempo mas, em traços largos, explico-lhe do que se trata. É um lugar virtual onde escrevemos o que nos apetece, sem canetas, nem folhas de papel, sem virar páginas. Temos visitas, que também vêm escrever opiniões, assim como nós vamos opinar aos Blogs das visitas. Zangamo-nos muito quando alguém fica uns dias sem escrever nada. Também há quem se engalfinhe por causa destas coisas, por não aceitar bem as opiniões. De vez em quando o ambiente parece que gela... outras vezes é tudo mel e rosas (se isto fosse no século XIX o Senhor Stendhal certamente que escreveria um tratado sobre Blogs!). Felizmente para nós, quanto a isso ficámos fora do alcance da sua pena. Talvez agora já possa compreender a tal situação embaraçosa que lhe venho contar. Durante quatro dias não pude blogar (é feio mas diz-se assim). Nada, nem um poema, nem uma história ou um texto temático em jeito de artigo ? como o do Nureyev (sei que não conhece mas pode encontrá-lo no Claro Obscuro). Ontem à noite, sabendo que hoje iria ter tempo para dedicar à escrita, deixei um recado para as minhas visitas avisando que ia escrever (o Phileas estava já um bocado impaciente, acusando-me até de só querer andar de trenó!). Pareceu-me pouco. Então citei-o a si, senhor Stendhal, postei (também se chama postar!) uma frase retirada Do Amor. Era para abrilhantar o simples recadito, deixar algo de bonito e inspirador de reflexões sobre o meu sentimento favorito. Ainda que nas suas palavras, seria algo que eu transmitia. Mas todos os que me leram, retiraram da forma algo desastrada e pouco precisa com que (mal) me expliquei, que eu iria hoje discorrer sobre o amor, mais precisamente sobre o saudável receio como base de felicidade no amor, e escrever sobre isso. E agora, Senhor Stendhal? E agora?! É que não estou para aí virada!? Hoje isso até me parece um assunto chatí? aborrecidíssimo! Se eu pudesse entrar no seu livro, na página onde o Senhor escreveu as palavras citadas ? se ele fosse o seu Blog, chamado Do Amor, podia! -, deixar-lhe-ia o seguinte comentário: O que tu foste escrever, Marie-Henri Beyle!!!! (aqui poria um smile a piscar o olho com cumplicidade, pois ambos sabemos que eu sei que tu és o Stendhal). Citei-te e agora estou metida num imbróglio! Não queres ir lá tu dizer qualquer coisinha do amor?! (tens link, claro!) Link, Senhor, é uma frasezita sublinhada, uma hiper ligação (atenção, não estou a falar de amor!) sobre a qual, dando um clic com o rato? Bem, esqueça completamente tudo isto. Desanimei de contar com a sua ajuda! Não estou para lhe explicar o que se tem feito nos últimos cento e muitos anos. Perdoe tê-lo acordado de forma tão estremunhada, ter dito tantas coisas incompreensíveis para si ? que é tão inteligente! ? e sair assim, sem mais explicações. Vou ver se os seus últimos escritos acusam a confusão que lhe causei (!) Sua leitora e amiga, © Fata Morgana Etiquetas: Correspondência VIP, Do Amor, Marie-Henry Beyle, Stendhal
O Saudável Receio Como Base de Felicidade no Amor
Sempre uma pequena dúvida a acalmar, eis o que faz a sede de todos os instantes, eis o que constitui a vida do amor feliz. Como o receio nunca o abandona, os seus prazeres não podem nunca entediar. O carácter desta felicidade é a sua extrema seriedade. Stendhal, in "Do Amor" Amanhã vou escrever, eu (não que vá fazer melhor que o Stendhal!...) Fata Morgana |
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